sábado, 3 de março de 2012

_ Zezinhoooo! Vai lá no Gimenez...

Quando publiquei "O Estrategista na Pequena Empresa", na introdução relatei que meus irmãos e eu passamos boa parte da infância brincando no supermercado que nossos pais haviam criado na esquina da Paranaguá com Goiás em Londrina. Com o passar dos anos, a pequena empresa de meus pais deixou de ser um espaço de brincadeiras, tornando-se o local de nosso primeiro envolvimento com o trabalho.
Essa pequena empresa e as pessoas que nela trabalharam ou que foram seus clientes (fregueses no dizer de meus pais) povoam parte de minha memória com lembranças que, às vezes, ainda hoje, depois de muitos anos de seu fechamento, servem de exemplo para ilustrar um ou outro aspecto do empreendedorismo e da administração de pequenas empresas em minhas aulas.
Outro dia, quando estava acompanhando minha mãe nas compras em uma loja de uma grande rede de supermercados que se instalou em Londrina, encontramos o José Brunelli, irmão da Margarida, filho da Dona Letícia, que fora freguesa durante toda a existência do Supermercado Gimenez. O José, depois dos abraços e cumprimentos calorosos que marcam o reencontro de pessoas que se tornaram amigas, indo muito além da relação comercial, me disse:
_ Fernando, sabe que algo que nunca esqueço são os momentos em que minha mãe me chamava e dizia: "Zezinhooooo! Vai lá no Gimenez e me traz....".
E continuou:
_ Foram infinitas idas ao Gimenez...
Assim como o Zezinho, muitos outros filhas e filhos atenderam a esse chamado: "Vai no Gimenez e me traz uma caixa de sabão, uma lata de óleo, cinco pães e um litro de leite. Fala pro Seu Christovam ou pra Dona Kilda marcarem. Depois eu passo lá e pago."
Uma pequena empresa que existiu por algumas décadas no mesmo local, deixa de ser apenas um espaço de trocas comerciais e torna-se um lugar onde laços de amizade e companheirismo se formam e permanecem. Assim como os Brunelli, meus pais estabeleceram relações de amizade com os Fernandes, os Amaral, os Ferrari, os Gorini, aquela família de "turcos", como era mesmo o sobrenome? Além desses, a família do Prof. Samuel Fabri, do Dr. Moisés Godói, Seu Souza e Maria Luíza, Dona Catarina e seus filhos, Zanda Amaral e seu Arnaldo com os filhos, os Garcia Lopes, a família da Jane, Magali e Divina, os Gonçalves, e muitos outros que estão na minha memória e, certamente de minha mãe e meus irmãos.
Esse encontro com o Zezinho Brunelli me veio à mente quando estava lendo a edição especial da Entrepreneurship Theory and Practice, uma das revistas mais importantes do campo do Empreendedorismo que foi lançada em janeiro desse ano. O tema da edição especial é "O coração do empreendedorismo" e contém oito artigos que abordam os mais variados aspectos da relação das emoções com o empreendedorismo e a administração de pequenas empresas.
Essa leitura me fez lembrar de um livro publicado por Stafford Beer, uma das pessoas mais brilhantes que tive o privilégio de conhecer quando fiz meu doutoramento na Inglaterra. Em 1979, Stafford Beer publicou um livro cujo título era " O coração do empreendimento" (The heart of enterprise) cujo propósito foi complementar seu livro anterior "O cérebro da firma" (The brain of the firm) publicado em 1972. O professor Stafford Beer, nessas duas obras, defendia um modelo que tratava as organizações como sistemas viáveis e propunha princípios de administração. Mas, algo que aparentemente parecia embutir a frieza do conhecimento científico racional era carregado de emoções, pois para Stafford Beer "a administração que é profundamente baseada em quaisquer princípios científicos, e não tem 'coração', no sentido de consideração humana, não será bem sucedida".
Explicar a permanência de pequenas empresas durante décadas em um mercado que é cada vez mais competitivo e dominado por grandes redes não é uma tarefa acadêmica fácil. Há uma quantidade tão variada de coisas que podem se relacionar com o fracasso ou sucesso de uma pequena empresa, que até hoje, apesar dos esforços dos estudiosos, temos muitas certezas e, também, muitas dúvidas. Mas, nesses 30 anos que tenho dedicado a essa tarefa, carrego comigo uma certeza que não aprendi nos bancos escolares, mas sim no convívio com meus pais no tempo em que os ajudei no supermercado: tão importante quanto o sucesso financeiro e econômico, a administração de uma pequena empresa bem sucedida depende de laços afetivos entre os que nela trabalham e os que dela dependem para a aquisição de produtos ou serviços em sua vida.
Talvez, para explicar essa presença da pequena empresa em nossa sociedade, precisamos olhar além da academia e, por exemplo, refletir sobre os versos de Pablo Neruda: "Assim cada manhã de minha vida trago do sonho outro sonho".
Há na ação dos proprietários de pequenas empresas a representação de um sonho que é renovado a cada dia. Anos depois, é bom lembrar que os sonhos de Kilda e Christovam marcam as memórias de muitos Zezinhos, Joãozinhos e Mariazinhas.

22 comentários:

  1. Gimenez,

    fiquei emocionada ao ler sua nova postagem, carregada de "tudo". Acredito que nada que seja feito sem o coração possa dar certo ou perdurar no tempo. As pessoas vivem em sociedade, convivem, e por isso precisam do principal no dia a dia, coração e envolvimento.

    Acredito que nas organizações isto também caiba perfeitamente, visto que nós, pessoas, estamos dentro delas.

    A vida é feita de muito mais...

    Beijos da amiga, Roberta.

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    1. Roberta,
      Estava escrito nas cartas! Rs rs rs rs...
      Abraços,
      Fernando

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  2. Fernando

    Sua sensibilidade e o texto é um exemplo de como a razão objetiva nunca deve ser separada da razão substantiva.

    Parabéns de mais um fregues e AMIGO.

    Sergio Bulgacov

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    1. Sergio,
      Você conheceu parte dessa história e mudou meu destino.
      Obrigado. Abraços,
      Fernando

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  3. Parabéns Fernando pela sensibilidade, gostei do texto.

    Abraço.
    Fabio Fagundes

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    1. Fábio,
      É bom ter sua presença por aqui. Não esperava que depois de nosso convívio na UP, fossemos trabalhar juntos novamente. O destino nos traz boas surpresas!
      Abraços,
      Fernando

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  4. Nostalgia de Porto Alegre e da Cravo e Canela : " Vai lá na Sula comprar uma cesta de café da manhã..." Muito emocionante teu artigo, prof Fernando!

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    1. Juliana,
      Não havia percebido seu lado "irritadinha". Visitei seu blog. Morri de rir! Do que será que os professores da PUC escaparam? Sucesso em seus estudos.
      Abraços,
      Fernando

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  5. Gostei muito Professor! Empresas são formadas por pessoas (trabalhando, consumindo, fornecendo)... E o tal do 'ser humano' é mesmo bem complicado... Haja ciência para as pequenas empresas!! Até o próximo artigo!! Abraço e sucesso! Fabiula

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    1. Fabíula,
      Sucesso para você também no seu empreendimento. Abraços,
      Fernando

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  6. Que texto lindo!!! Não dá para separar a emoção da ação empreendedora.
    Abraços,
    Jane

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    1. Jane,
      Grato pela amizade e presença constante.
      Abraços,
      Fernando

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  7. No meu momento nostalgia lembrei do meu primo e eu no Ford do meu avô fazendo entregas de salames nas "vendas" de Santa Felicidade... em cada entrega uma pausa pra "prosa", um café, e claro uma "prenda" pra nós... Delícia de lembrança! Parabéns professor, texto inspirador! Abçs, Giocéli.

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    1. Giocéli,
      Somos privilegiados por podermos lembrar de histórias assim. Obrigado pelo comentário. Abraços,
      Fernando

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  8. Uma história de vida e cada leitor tem a sua (conforme comentários acima). Parabéns e obrigado professor, por compartilhar as suas experiências profissionais vinculadas ao pessoal, familiar. Precisamos disso. Um abraço, Claudio (MBA Inovação).

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    1. Cláudio,
      Agradeço seu comentário. Espero que o curso esteja sendo frutífero. Abraços,
      Fernando

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  9. Fernando,
    a gente se orgulha dos amigos que conseguem trazer para nossa "árida" academia um pouco de senso estético (e ético)!
    abçs,

    Alexandre (Graeml)

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    1. Alexandre,

      Fiquei feliz ao ver você por aqui. Abraços,

      Fernando

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  10. Professor Fernando.
    Neste texto, percebi nas entrelinhas, o coração de um menino,o espírito inquieto de um homem e a ternura de um cientista.

    Com admiração.
    Zenaide

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    1. Zenaide,
      Somente uma poetisa (sou antigo! não consigo usar o genérico poeta!) para registrar de forma tão afetiva e verdadeira o que se passou comigo ao escrever esse texto. Muito obrigado!

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  11. Maíra,
    Não sabia desse Bazar na história dos Tito. Me lembro dele. Abraços,
    Fernando

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  12. Acabo de postar a foto do supermercado Giménez no meu face quando deparo com esse texto. Muitoooooooo legal todas as familias londrinenses que puderam conhecer e usufruir desse tao dedicado trabalho da familia Giménez. Aproveito para acrescentar que todos os que curtiram e comentaram no meu face, nao faziam parte de nenhuma tradicional familia londrinense e sim de repúblicas alternativas de estudantes que vinham de fora e povoavam as imediacoes do supermercado na década de 80 e que apesar quase todos nao morar mais em Londrina todos de lembram do Giménez com,muito carinho.

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