terça-feira, 18 de setembro de 2018

TÚNEL DO TEMPO 1 - Pequenas empresas nos anos 90


Graças ao esforço de preservação da história familiar que minha mãe, Kilda Gomes do Prado Gimenez, empreendeu ao longo de sua vida, tenho em minhas mãos um álbum da vida com fotografias, documentos, informações, reportagens impressas e cópias de textos que escrevi ao longo de boa parte de minha vida. A fotografia que ilustra este post é a reprodução da contracapa e página inicial de meu álbum de vida. Esse garoto sorridente sou eu antes do primeiro aniversário.

Em três semanas começarei minha atuação como professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas com uma disciplina sobre Políticas Públicas de Fomento ao Empreendedorismo. Hoje, folheando meu álbum de vida, encontrei algum textos que escrevi e foram publicados na Folha de Londrina, jornal diário da cidade que existe há muitas décadas em Londrina. São textos do começo dos anos 90 em que comentei sobre questões associadas ao estímulo às pequenas empresas e sobre seu desenvolvimento
Minha presença neste blog tem sido muito esporádica nos últimos meses. Venho pensando alguns textos para ele, mas as atividades acadêmicas e administrativas na UFPR acabam empurrando a escrita para outros momentos. Ao encontrar meus textos de 28 anos atrás, decidi retomar os posts do blog. Começarei com a reprodução daqueles textos publicados na Folha de Londrina. Um resgate das ideias que estavam em minha mente à época e, provavelmente, ainda devem fazer sentido. Começo com o texto Pequenas empresas nos anos 90 de 26 de janeiro de 1990. Nele abordo temas que se consolidariam em meus estudos sobre estratégia de pequenas empresas que são parte relevante de minha produção acadêmica desde então. Vem comigo!

Pequenas empresas no anos 90
O professor Rattner, em recente artigo na Folha de São Paulo, afirmou que a evolução da informática aplicada às empresas está delineando um novo paradigma tecnológico, que demandará das pequenas e médias empresas (PMEs) ações que levem à sua modernização administrativa, para que possam usufruir plenamente dos benefícios deste paradigma.
A par das exigências postas pelo novo paradigma tecnológico, a crescente internacionalização da economia colocará novos desafios às PMEs, através de uma concorrência mais acentuada. A formação dos grandes blocos econômicos (Europa 92, EUA e Canadá, países asiáticos) será um fator adicional no acirramento da competição empresarial a nível internacional. Por outro lado, as transformações econômicas e sociais pelas quais vêm passando os países socialistas podem significar oportunidades comerciais a serem exploradas também pelas PMEs.
O comportamento do consumidor, por sua vez, está sofrendo uma transformação no sentido de fugir à padronização que tem caracterizado a sociedade industrial. A diferenciação nos hábitos de consumo, a procura por produtos e serviços especializados, fazem com que as vantagens da economia de escala deixem de ser tão importantes. Esta tendência, aliada às facilidades que a informática e a automação industrial estão apresentando, levam a crer que os espaços a serem ocupados pelas PMEs poderão ser muito ampliados.
Para que as PMEs possam fazer face às ameaças e oportunidades que se delineiam para os anos 90 é necessário que seus dirigentes passem a adotar, com grande ênfase, duas práticas administrativas essenciais: o comportamento estratégico e estratégias de cooperação.
O pequeno empresário, em geral, adota um estilo de administração introvertido, ou seja, é tão absorvido por atividades rotineiras de sua empresa que acaba prestando pouca atenção à evolução do mercado em que atua. A ação do pequeno empresário de sucesso deve estar muito mais voltada para o relacionamento de seu negócio com o ambiente empresarial. O sucesso da empresa está, em maior grau, relacionado à eficácia com que a empresa se adapta às transformações que ocorrem à sua volta e, em menor grau, relacionada à eficiência com que as operações internas são realizadas visando conseguir aquela adaptação. Em suma, é preciso que o dirigente de uma pequena empresa passe a adotar o planejamento estratégico como uma das ferramentas na administração de seu negócio.
Por outro lado, os anos 90 exigirão das PMEs novas posturas nas suas relações com fornecedores, consumidores, reguladores, financiadores e trabalhadores. Estas se caracterizarão basicamente pela adoção de uma estratégia de cooperação intrasetorial.
Em relação aos reguladores, as associações de pequenas empresas atualmente vêm desempenhando uma ação coletiva muito eficaz, através dos grupos de pressão. Este tipo de atividade, além de divulgar os aspectos positivos do segmento, seus problemas e necessidades, é eficaz também na obtenção de apoio legislativo, através da pressão junto aos legisladores, como bem exemplifica a história recente de nossa última constituição federal.
Da mesma forma, a nível de ramo de negócio, cooperativas ou associações poderiam ser formadas visando desenvolver atividades direcionadas para cada um dos públicos externos. Por exemplo, em relação aos fornecedores, a instalação de centrais de compra permitiria a obtenção de benefícios em relação a preços, condições de pagamento e qualidade dos insumos. No que diz respeito aos consumidores, esforços coletivos poderiam ser desenvolvidos no campo da publicidade institucional e da pesquisa sobre o consumidor. Estas ações redundariam em ampliação do mercado total, por um lado, e melhor conhecimento do consumidor por outro. Grupos de negociação coletiva e centros de treinamento são atividades que podem ser desenvolvidas no que diz respeito à mão-de-obra.
Se o associativismo, de uma maneira geral, apresenta excelentes resultados, independentemente do porte das empresas envolvidas, no caso das PMEs esta prática deve ser incentivada com a maior ênfase possível, tendo em vista seu enorme potencial de contribuição na superação das dificuldades que as pequenas empresas enfrentam em sua ibserção no mercado.

Quem diria? Eu já fui um apóstolo do planejamento estratégico! Era impossível escapar dessa influência nos anos 80, meus anos de formação na graduação e mestrado em administração. Mas, além disso, já havia algum embrião da preocupação com os stakeholders e com as estratégias que seriam mais tarde chamadas de coopetição. Por fim, era difícil fugir do caráter normativo do texto, cheio de o que tinha ou deveria ser feito!

O texto me identificava como administrador e professor-assistente do Departamento de Administração da Universidade Estadual de Londrina. Ainda não tinha começado meu doutoramento, que só ocorreria a partir de 1991.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Economia criativa e empreendedorismo cultural

Em uma conversa com os integrantes do Fórum Desenvolve Londrina (http://www.forumdesenvolvelondrina.org/) apresentei minha visão da economia Criativa sob uma perspectiva empreendedora e cultural. Como apresentado no site do Fórum, este é "um movimento criado por força de decreto-lei, composto por entidades e pessoas de diversos segmentos, e que tem por objetivo aglutinar a sociedade organizada e mobilizar a comunidade para o desenvolvimento sustentável de Londrina e região, por meio de atividade permanente de prospecção de futuro e planejamento estratégico, independente de política partidária".
Fiz uma fala inicial de pouco mais de 45 minutos e depois tive o privlégio de responder perguntas e trocar ideias com as pessoas presentes. 
A minha palestra foi transmitida ao vio e gravada e pode ser acessada neste link: https://www.facebook.com/ForumDesenvolveLondrina/videos/287860385139590/?hc_ref=ARTWm2qtHJON5skFfFRoDrf5GFrqwA3NFYb9JGBqzNEc9wWV07vTL3mNmSG3sNji_m8&__xts__[0]=68.ARCdhQJMfBiVsxX-B3WjbBz5OGXVCHGoCdKVDpf_wf3lsjAjicZQuPMy5juac7FMCKaMz4swgl4or_8lOreeVQXDYxviCZ3LTVlNe_74ZJBp6V2iBujOoX7AydFWuTrBq7E2t1o&__tn__=kCH-R
Em resumo, após uma breve exposição histórica e conceitual sobre a economia criativa e economia da cultura, procurei explorar as possibilidades de apoio àqueles que desejam empreender no campo da economia da cultura. Parti de uma questão inicial: Como os que empreendem nesse campo lidam com interesses e objetivos que podem ser, às vezes, conflitantes?
O argumento seguiu essa linha:
1. Há uma tensão central no campo do empreendedorismo cultural: conciliar demandas de sustentabilidade econômico-financeira do modo capitalista dominante em nossa sociedade com aspirações e desejos expressivos de natureza predominantemente subjetivas manifestados no ato criativo do empreendedor cultural.
2. Assim como no empreendedorismo sustentável, no empreendedorismo cultural o econômico-financeiro pode ser visto como meio e não finalidade principal do processo empreendedor.
3. Há uma dualidade na identidade do empreendedor cultural: ora é visto como agente criativo no campo da cultura propiciando valores simbólicos para a sociedade, ora é visto como agente econômico gerador de valores financeiros para um mercado.
4. Esta dualidade pode apresentar implicações no campo do fomento ao empreendedorismo cultural, ao exigir dos agentes públicos uma sensibilidade tanto para a ação simbólica do empreendedor cultural quanto para sua ação econômico-financeira.
5. Na economia da cultura há uma forte relação entre a produção cultural e o apoio direto e indireto (via renúncia fiscal) do governo.
6. Isso implica na necessidade de desenvolvimento de competências em três áreas: criação artística; atuação empresarial; e legitimação artística e empresarial face aos fomentadores públicos e privados da atividade.
7. Portanto, as política públicas de fomento ao empreendedorismo cultural devem enfatizar a articulação dos atores da economia da cultura com outras pessoas e organizações que lhes permitam desenvolver suas habilidades criativas, competências de negócios e capacidades de sensibilização de agentes apoiadores e financiadores.
8. Por outro lado, há possibilidade de ampliação dos esforços de educação para o empreendedorismo de jovens para atuação no campo da economia criativa e da cultura, tanto em instituições formais quanto por meio de outras formas de educação não formal.
9. Mais especificamente, dvee haver esforços em direção à educação para o desenvolvimento de uma atitude empreendedora e de competências empreendedoras no campo da formação em artes e humanidades em geral, bem como em algumas profissões liberais com interface na economia da cultura. Por exemplo, Comunicação, Direito, Design, Turismo, entre outras.
10. Por fim, deve ser ressaltado e enfatizado o papel de programas municipais de incentivo à cultura e os impactos da proliferação de festivais culturais sobre a economia da cultura e economia geral de uma localidade. Por exemplo, o Programa Municipal de Incentivo à Cultura – PROMIC  de Londrina criado pela Lei Municipal n º 8.984, de 06 de dezembro de 2002, que criou também o Fundo Especial de Incentivo à Cultura - FEPROC. 
11. Nessa linha, pode ser salutar para o desenvolvimento da economia da cultura e para o surgimento de novos empreendimentos neste campo, a nserção de atividades de negócios nos festivais, como ocorre em muitos festivais de cinema


quarta-feira, 11 de julho de 2018

EMPREENDEDORISMO CULTURAL: DUAS BREVES HISTÓRIAS


O tema do empreendedorismo cultural tem me atraído nos últimos anos. Minha primeira aproximação se deu quando, ao preparar um trabalho de conclusão de curso de especialização em Cinema, relatei minha experiência com a criação da Revista Livre de Cinema. Este texto, com algumas modificações, foi publicado em formato de artigo na Revista de Empreendedorismo e Inovação Sustentáveis (http://revista.isaebrasil.com.br/index.php?journal=revise&page=article&op=view&path%5B%5D=7&path%5B%5D=GIMENEZ-v1n12016).
Antes desse artigo, embora eu não tenha usado o termo empreendedorismo cultural, esta noção surgiu de forma embrionária em meu modelo mental sobre o empreendedorismo quando comentei a palestra dada por Lucia Murat em Curitiba no post A pequena empresa como espaço expressivo do empreendedor (http://3es2ps.blogspot.com/2013/05/a-pequena-empresa-como-espaco.html). Nesse momento, enxerguei a cineasta como uma empreendedora, ao mesmo tempo em que avançava a ideia de que empreender pode ser visto como um ato de expressão para o mundo, ou seja, um momento de criatividade. Ora, os empreendedores culturais são o tipo de empreendedor onde essa vontade de se expressar para o mundo se manifesta cotidianamente em suas manifestações culturais.
Desde então, tenho refletido sobre o tema e, vez ou outra, escrevo algo. Uma das questões que tenho intenção de explorar de forma mais aprofundada se relaciona com a identidade empreendedora dos que empreendem no campo da cultura. Por ser um campo de atuação que envolve a constante aplicação de processos criativos, ao mesmo tempo em que, demanda o domínio de uma lógica de articulação de recursos de forma sustentável, independente da natureza lucrativa ou não das ações empreendedoras nesse campo, penso que o empreendedorismo cultural pode gerar um conflito existencial naqueles que empreendem no campo.
Assim, pode ser que os atores desse campo não se sintam muito confortáveis quando são identificados como empreendedores. Por exemplo, em janeiro deste ano, publiquei outro post em que falo de Nitis Jacon como uma empreendedora cultural (http://3es2ps.blogspot.com/2018/01/nitis-jacon-uma-empreendedora-cultural.html). Não sei se Nitis concordaria com esta qualificação, mas tenho certeza que sua trajetória profissional, especialmente à frente do Festival Internacional de Londrina, é um ótimo exemplo de empreendedorismo cultural.
No ano passado, publiquei um livro com os resultados de levantamento que fiz sobre a produção brasileira no campo do empreendedorismo disseminada na forma de artigos. Criei também uma tipologia de temas de pesquisa no campo do empreendedorismo brasileiro. O empreendedorismo cultural é um campo que surgiu recentemente e ainda não tem uma produção numerosa. O livro pode ser acessado em (https://www.dropbox.com/s/8bayerejmtevqpv/Empreendedorismo%20-%20uma%20bibliografia%20de%20artigos%20publicados%20em%20peri%C3%B3dicos%20brasileiros.pdf?dl=0).
Neste momento, desejo comentar sobre dois empreendimentos culturais que conheço. Um deles de Curitiba, que conheçi há alguns anos. O outro é de São Paulo, que pude visitar dias atrás. São empreendimentos em campos distintos, literatura e teatro, mas demonstram, em minha percepção alguns aspectos dessa dualidade que é empreender no campo da cultura.
Há alguns anos, conheci o Jornal Relevo que encontrei em uma biblioteca. Distribuído gratuitamente, ele existe desde setembro de 2010. Conforme descrito em sua página no Facebook (https://www.facebook.com/pg/jornal.relevo/about/?ref=page_internal), é um impresso mensal de cultura, sobretudo de literatura, editado pelo jornalista Daniel Zanella. Uma das coisas que me chamou a atenção, além do conteúdo do Relevo, é o cuidado e a transparência em prestar contas do volume de recursos arrecadados e gastos com cada edição. Por esses números, é possível verificar que não há uma finalidade lucrativa no empreendimento, mas este já se mostrou viável, pois existe há oito anos. As edições do Relevo podem ser acessadas em (https://issuu.com/jornalrelevo/docs).
O outro empreendimento cultural que conheci recentemente é o Teatro e Bar Cemitério de Automóveis (https://www.facebook.com/cemiteriodeautomoveis1/). Assisti a uma peça de Mário Bortolotto no teatro e junto com Edra Moraes passei algum tempo no bar. Foi uma comédia deliciosamente escrachada, mas que, ao mesmo tempo, nos convida à reflexão. Foi uma experiência de teatro muito agradável.
Mário nasceu em Londrina, onde criou o grupo de teatro Cemitério de Automóveis, que foi transferido para São Paulo anos atrás. Além de ator, Mário é dramaturgo e, em minha percepção, empreendedor. Empreendimentos culturais no campo do teatro são muito comuns, mas o Cemitério de Automóveis me parece um pouco distinto da maioria das casas de teatro. Além de combinar bar e teatro, o espaço do teatro é muito pequeno com apenas 26 lugares, dedicando-se a um repertório menos tradicional na dramaturgia brasileira. Se fosse usar um linguajar da administração, é um empreendimento diferenciado que atende a um nicho mais restrito de público. Ao contrário do Jornal Relevo, creio que o Cemitério de Automóveis tenha finalidade lucrativa.
Os dois empreendimentos são distintos, mas possuem atributos semelhantes. Em primeiro lugar, são iniciativas de profissionais do campo da cultura que atendem a nichos específicos de público. Dessa forma, pode ser que os seus criadores tenham que constantemente equilibrar uma lógica criativa com uma lógica de empreender com viabilidade. Em segundo lugar, dependem de uma capacidade de articulação de recursos e pessoas que garantem sua existência ao longo do tempo. O Relevo tem uma ampla rede de colaboradores que produzem conteúdo, ao mesmo tempo em que consegue financiamento, de forma convencional, por meio de anúncios e venda de assinaturas. O Cemitério de Automóveis, ao que me parece tem uma equipe de colaboradores no bar, conta com o trabalho de atrizes, atores e outros profissionais na montagem e exibição das peças. De forma mais convencional, obtém sua renda por meio de venda de produtos e ingressos.
Tenho muita curiosidade de conversar com empreendedoras(es) culturais. As poucas informações que consegui sobre esses dois empreendimentos culturais me indicam que este é um espaço que merece ser mais explorado nos estudos sobre empreendedorismo no Brasil. Em especial, o que gostaria de explorar incialmente é o que motiva estes empreendedores culturais, como lidam com diferentes lógicas de pensar e agir,e como se deu o processo de empreender. É um campo. de pesquisa fascinante!


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Nitis Jacon, uma empreendedora cultural

Passando férias em São Francisco do Sul, na casa de minha irmã Kilda. Dias atrás, encontrei um livro escrito por Nitis - Memória e Recordação Festival Internacional de Londrina - 40 anos. Nele, uma dedicatória de Nitis para Kilda. Sem data. Me apaixono pelo relato de Nitis e decido, após sua leitura, escrever esse post. Foram mais de 40 dias sem visitar meu blog. No segundo semestre do ano passado, alías, andei afastado de meus blogs. Escrevi muito. Mas, foram escritos mais técnicos, guiados por um estilo mais formal. Em férias, deixo a imaginação e emoção me guiarem. Inspirado pelo relato de Nitis, quero registrar a minha percepção dela enquanto empreendedora cultural à frente do Festival Internacional de Londrina (FILO)
Me vem â mente, meu primeiro escrito sobre o tema. Foi, também, inspirado por uma mulher. Uma cineasta. Registrei minha reação às palavras de Lucia Murat quando, alguns anos atrás, em maio de 2013, ao assistir a sua palestra em Curitiba, antes da exibição do making of do filme A memória que me contam, inspirei-me na possibilidade dela ser vista como empreendedora cultural. Isto foi registrado no post http://3es2ps.blogspot.com.br/2013/05/a-pequena-empresa-como-espaco.html.
Fui professor da Universidade Estadual de Londrina durante 17 anos. Entre 1981 e 1998, tive a oportunidade de ver muitas apresentações teatrais que aconteciam anualmente nas edições do FILO. Era inevitável ver a figura marcante de Nitis durante as realizações do FILO. Todavia, nunca fomos próximos. Eu admirava o trabalho que ela realizava, mas como professor do Departamento de Administração havia poucas chances de contato com ela. Ademais, minha timidez impedia uma aproximação a esta mulher forte. O que podia eu falar a alguém que fazia tanto?
Compromissos universitários acabaram nos levando a conviver, ainda que por períodos curtos. Certa vez, eu era chefe do departamento e Nitis, como vice-reitora, foi à abertura de um evento de nosso curso. Naquele dia, usei uma metáfora sobre o cinema para falar sobre o ensino de Administração. Nitis reforçou minha metáfora usando a poesia em sua fala. Foi um momento em que,juntos, misturamos razão e emoção.
Lembro-me de um encontro com Nitis, também quando era vice-reitora da UEL e eu, por apenas seis meses, fui coordenador de ensino de graduação da UEL. Este era um cargo semelhante a Pro-reitor que na estrutura administrativa da UEL tinha um nome diferente. Portanto, segundo escalão. Eu fora convidado pelo reitor Jackson Proença Testa para assumir esta função devido ao falecimento do Professor Abdo, que era o coordenador anterior. Logo no começo, certo dia, eu estava chegando para trabalhar na minha sala da CAE e Nitis me abordou no estacionamento. Veio me abraçar e dizer que estava muito feliz por minha indicação para o cargo. Ela ficara curiosa em saber quem eu era e descobrira que era irmão de Kilda. Minha irmã, também professora na UEL, auxiliava nas atividades do FILO na condição de tradutora e intérprete para os convidados estrangeiros por meio de seu domínio da lingua inglesa de que era professora. Minha curta estadia na CAE me aproximou um pouco de Nitis. Alguns anos depois, quando ela foi presidenta do Centro Cultural Teatro Guaíra, entre 2003 e 2005, eu estava em Curitiba como diretor de Administração da Fundação Araucária. Tivemos a oportunidades de nos encontrarmos algumas vezes. Caminhos idferentes, acabaram nos afastando geograficamente. Fiquei em Curitba e ela voltou para o norte do Paraná.
O empreendedorismo cultural tem me atraído recentemente. É um tema de estudo que me cativa devido ao que chamo de dupla lógica de atuação. Aquelas(es) que empreendem culturalmente, ao mesmo tempo em que seguem uma lógica criativa nas suas ações, precisam desenvolver, também, habilidades de negócios, visto que seus empreendimentos culturais estão imersos em uma sociedade capitalista e dependem de recursos financeiros. É um campo de ação onde emoção e razão convivem diuturnamente. É um processo contínuo de construção de uma identidade empreendedora, em que o sentimento de realização vem de uma capacidade de se comunicar criativamente de forma a atingir metas artísticas e viabilidade econômico-financeira.
No livro de Nitis encontrei um relato sincero em que as emoções, frustrações, alegrias, desejos, dúvidas e dívidas foram os personagens ocultos de um drama que se repete anualmente, quase sempre com final feliz. O que vi foi um relato que reforçou minha crença na noção de que o empreendedorismo, em geral, e o cultural, em particular, é uma maneira que temos de nos expressar para o mundo. Seja nos seus estágios iniciais, quando o empreendimento está se formando, seja mais tarde quando este se estabiliza, mas, paradoxalmente, demanda ajustes contínuos, algumas mudanças, inovação e transformação, os que empreendem parecem afirmar: é isso o que eu enxergo e assim que quero participar desse mundo!
Foi isto que vi Nitis fazendo, nos momentos em que pude ser espectador do FILO e lendo, nesses dias, o livro de Nitis. Para finalizar, reproduzo trecho de uma carta escrita por Nitis ao governador do estado em 1996, em que ela, a meu ver, sintetiza o que quero dizer quando a qualifico como empreendedora cultural:
"Todos os anos, inevitavelemente, sofro a angústia da imponderabilidade do acaso e da concretude dos obstáculos que configuram a incerteza de que, afinal, o Festival acontecerá mais uma vez. Choro, me lamento, rodo a baiana, chuto o pau da barraca, imagino crimes hediondos nas minhas noites de insônia... Depois, na abertura do festival, esqueço tudo e agradeço. Agradeço a deus e ao diabo..." (p. 349).
Lindo de viver!

Referência: Jacon, Nitis. Memória e Recordação Festival Internacionla de Londrina. - 40 anos. 2010.

sábado, 4 de novembro de 2017

ESTUDOS SOBRE PEQUENA EMPRESA NO BRASIL NO SÉCULO 20: UM RETRATO A PARTIR DE ARTIGOS PUBLICADOS EM PERIÓDICOS BRASILEIROS

Assim como fiz com os estudos sobre empreendedorismo no Brasil, estou realizando um levantamento dos artigos publicados em periódicos brasileiros cujo tema é relacionado às pequenas empresas. Comecei as buscas nas bases do SPELL e do SCIELO.BR. Utilizei os termos de busca pequena(s) empresa(s), micro empresa(s) e microempresa(s). Adicionalmente, pesquisei o Google Acadêmico usando apenas pequena(s) empresa(s). Por enquanto foram quase 1.300 textos. A busca no Google Acadêmico ainda não está concluída. Como esta base permite acesso a no máximo 1.000 itens, faço uma busca ano a ano. Entre 1900 e 1990, fiz as buscas por décadas. Depois, parti para buscas anuais, tendo chegado a 2006.
Para cada um dos artigos, verifiquei ainda as referências bibliográficas em busca de textos mais antigos. Este procedimento permitiu que eu localizasse mais 24 artigos publicados entre 1969 e 2000 que não tinham surgido nas buscas anteriores. Para cada artigo, identifiquei ano de publicação, periódico, autores e tema do estudo. Nesse post relato os resultados dos artigos publicados no século 20, entre 1969 e 2000, que totalizaram 139. A tabela abaixo  mostra o número de artigos publicados a cada década e para o ano 2000, separadamente.

Período
Artigos
1960s
4
1970s
13
1980s
42
1990s
62
2000
18

Em um primeiro momento, agrupei os artigos em três períodos: décadas de 60 e 70; década de 80; e década de 90 mais o ano 2000. Depois verifiquei que os anos 80 foram muito semelhantes às duas décadas anteriores. Assim, decidi comparar os textos publicados entre 1969 e 1989 com os posteriores.
No que diz respeito aos temas dos artigos, a classificação foi feita com base no título e resumo deles. Quando não havia resumo, uma leitura da introdução dos textos complementou a análise a partir do seu título. Os artigos que foram identificados a partir das referências citadas nos demais foram classificados exclusivamente a partir do título, já que não consegui encontrar os mesmos na Internet. Isso levou à criação de uma categoria de “não classificados”, visto que alguns títulos não permitiram identificar qual o tema do artigo. A tabela a seguir mostra os temas e as quantidades de artigos publicados até 1989.

Tema
Artigos
Apoio à pequena empresa
13
Aspectos econômicos das pequenas empresas
8
Marketing
6
Processo de Gestão
5
Empresa familiar
4
Gestão de Pessoas
4
Atributos do dirigente da pequena empresa
3
Empreendedorismo
2
Internacionalização
2
Administração Estratégica
1
Contabilidade na pequena empresa
1
Desenvolvimento Sustentável
1
Inovação e tecnologia
1
Não classificado
8


Até os anos 80, predominaram os temas relacionados às formas de apoio à pequena empresa e aos aspectos econômicos. Em relação ao primeiro, havia textos que descreviam ou propunham a necessidade de atividades de apoio às pequenas empresas. Quanto ao segundo tema, a maioria deles tratava da importância da presença de pequenas empresas para o desenvolvimento econômico, principalmente em termos de geração de emprego e renda.
Nesse período, também, foram frequentes estudos sobre aspectos da gestão das pequenas empresas, especialmente relacionados a Marketing, Processo de Gestão e Gestão de Pessoas. A Administração Estratégica em pequenas empresas, surgiu apenas no final desse período, com um artigo que publiquei em 1987 na revista Temática – Estudos de Administração da Universidade Estadual de Londrina.
Os onze anos seguintes, trazem um panorama muito diferente no que diz respeito aos temas dos artigos. Nesse período, as questões relacionadas à gestão das pequenas empresas vão ganhar destaque na atenção dos pesquisadores. A Administração Estratégica e o Processo de Gestão foram os temas mias frequentes, representando 30% dos artigos publicados. O Apoio à Pequena Empresa esteve presente em 10% dos artigos. Além desses temas, os estudos sobre Empreendedorismo e Inovação e Tecnologia nas pequenas empresas também foram mais numerosos, equivalendo a 15% dos artigos. Nesse período, surgem os primeiros artigos que abordaram temas relacionados a associações de pequenas, empresas, arranjos produtivos e clusters, bem como artigos que abordaram aspectos da aplicação de tecnologias de informação em processos decisórios nas pequenas empresas.. Por fim, a diversidade de temas dos estudos se ampliou em relação ao período anterior. A próxima tabela detalha estas informações.

Tema
Artigos
Administração Estratégica
15
Processo de Gestão
9
Apoio à pequena empresa
8
Empreendedorismo
6
Inovação e tecnologia
6
Aspectos econômicos das pequenas empresas
5
Associações, Redes e Polos de empresas
5
Informação e processo decisório
5
Administração Financeira
4
Contabilidade na pequena empresa
3
Marketing
3
Atributos do dirigente da pequena empresa
2
Características das pequenas empresas
2
Cenário competitivo para pequenas empresas
2
Operações e Logística
2
Empresa familiar
1
Estudos revisionais e bibliometrias
1
Internacionalização
1

Para finalizar este post, apresento nas tabelas abaixo os periódicos e autores com maior número de artigos em cada período. Foram 25 periódicos no primeiro período e 32 no outro. Quanto aos autores, o número passou de 53 até 1989 para quase o dobro até 2000 (105). Nesse item, embora soubesse que eu tenho sido um autor muito frequente no campo dos estudos das pequenas empresas, fiquei gratamente surpreso ao verificar que fui o autor com maior número de artigos publicados. É claro que essa informação é baseada nos artigos que localizei. Com certeza há outros, especialmente publicados em meio físico e que ainda não estão disponíveis na Internet.

1960 a 1989
Periódico
Artigos
Revista de Administração de Empresas
19
Revista de Administração
8
Indústria e Desenvolvimento
4
Indústria & Produtividade
2
Revista da Fundação João Pinheiro
2
Revista de Administração de Empresas
2
Revista do BNDE
2
Ensaios FEE
2
Temática: Estudos de Administração
2
1990 a 2000
Periódico
Artigos
Revista de Negócios
14
Revista de Administração
13
Ciência da Informação
6
Ensaios FEE
5
Revista de Administração de Empresas
5
Revista do BNDES
4
Revista de Ciências da Administração
3
Caderno de Administração UEM
2
Production
2
Revista Brasileira de Economia
2
Revista de Administração Contemporânea
2
Teoria e Evidência Econômica
2

1960 a 1989
Autor
Artigos
Fernando Antonio Prado Gimenez
4
Henrique Rattner
4
Ivan Dutra
4
José Augusto Guagliardi
4
Hélio Janny Teixeira
3
J. L. Delgado
3
1990 a 2000
Autor
Artigos
Fernando Antonio Prado Gimenez
8
Nilda Maria de Clodoaldo Pinto Guerra Leone
5
Edmundo Escrivão Filho
3
Gérson Tontini
3
Louis Jacques Filion
3
Maria Carolina A. F. de Sousa
3
1960 a 2000
Fernando Antonio Prado Gimenez
12
Henrique Rattner
5
Nilda Maria de Clodoaldo Pinto Guerra Leone
5
Ivan Dutra
4
José Augusto Guagliardi
4
Cleufe Pelisson
3
Edmundo Escrivão Filho
3
Gérson Tontini
3
Hélio Janny Teixeira
3
J. L. Delgado
3
Louis Jacques Filion
3
Maria Carolina A. F. de Sousa
3