quarta-feira, 20 de maio de 2020

Muito antes desse tal de delivery


Nesse momento de pandemia do Covid 19, a ideia do delivery se tornou obrigatória para a maioria dos empreendimentos comerciais. A imposição ou recomendação de isolamento social em muitas cidades fez com que essa forma de venda se expandisse muito. Com a disponibilidade dos aplicativos e dos sites de vendas online, se multiplicaram as possibilidades de atendimento às necessidades de consumo da população. Mas, todo mundo sabe que isto já estava acontecendo há, pelo menos, uns cinco anos ou mais. O delivery, com esse nome, pode ser uma novidade. Mas, com outro nome, ele já acontecia há décadas.
Nesses dias que tenho permitido à minha mente viajar por lembranças do tempo em que trabalhei com meus irmãos e meus pais no Supermercado Gimenez, me veio à mente mais uma história envolvendo o José, um dos motoristas que trabalharam no Supermercado Gimenez. A principal função dos motoristas era fazer entregas a domicílio com a Kombi do mercado, mas ajudavam em outras tarefas quando não havia entregas a serem feitas.
Essas entregas surgiam de duas maneiras: fregueses que faziam compras presencialmente e solicitavam que fossem levadas para suas casas; ou compras feitas pelo telefone, que eram preparadas por alguma de nossas funcionárias e depois encaminhadas às casas dos clientes.
Esse serviço de entrega a domicílio, o que hoje chamam delivery, era comum no comércio daquela época. Certo dia, José chegou para mim, ou para minha tia Amélia, que trabalhou conosco por algum tempo, e disse:
_ Não vou mais fazer entrega na casa da fulana (não vou usar os nomes verdadeiros, para não criar nenhum constrangimento, apesar da fulana já estar morta há muito tempo).
Essa decisão do José foi uma surpresa para nós. O que será que teria acontecido? Foi a pergunta feita a ele, que respondeu:
_ Então, lá naquela casa as pessoas andam só de calcinha e cueca. Eu não posso ir fazer entregas lá.
José era devoto de uma denominação religiosa muito rigorosa. E a casa da fulana era conhecida por ser frequentada por muitos jovens, homens e mulheres, que eram adeptos de uma vida mais livre, sem muito apego às convenções sociais. A fulana era filha de um empresário bem sucedido da cidade. E as compras daquela casa sempre eram muito volumosas. Além disso, eram compras feitas no velho sistema de “assinar as notas” que seriam pagas no começo do outro mês pelo pai. “Assinar as notas” era uma evolução das antigas cadernetas de fiado usadas pelo comércio varejista. Uma prática que meu pai e minha mãe adotaram por muito tempo na época da Casa Gimenez. Dia sim, dia não, a fulana ligava para o Supermercado Gimenez e fazia um pedido de entrega.
Pois então, não dava pra gente dizer para a fulana ou o pai dela que não faríamos mais entregas naquela casa. No começo do mês a conta paga pelo pai da fulana era significativa. Não podíamos abrir mão daquele faturamento. Felizmente, naquela época os três irmãos – Christovam, Arlindo e eu – já éramos motoristas e passamos a levar as compras na casa da fulana. Pelo menos no meu caso, não me lembro de ver os jovens circulando pela casa de cueca ou calcinha. Em geral, a empregada da casa era quem recebia as entregas. E, sempre, devidamente vestida, até uniformizada! Assim, preservamos os princípios religiosos do José, que continuou fazendo as demais entregas, exceto quando, como já contei em outro texto, meu irmão mais velho fazia questão de fazer alguma entrega mais especial.
Tem outra coisa relacionada às entregas a domicílio que me fez refletir sobre os tempos do Supermercado Gimenez. Hoje a prática do delivery é tão comum, que não penso ser possível algum negócio deixar de utilizá-la. Mas, naquela época os pedidos por telefone e posterior entrega a domicílio foram foco de muito debate entre os supermercadistas de Londrina.
Nosso supermercado era vinculado à associação de supermercados. Pelo menos uma vez por mês, participávamos de reuniões com os demais para discutir assuntos da classe. Volta e meia a questão das vendas por telefone, que continuávamos fazendo, era lembrada e criticada. A lógica dessa crítica residia no fato de que a criação das então chamadas “lojas de autosserviço” era uma inovação que deveria estimular o cliente, ao circular livremente pela loja, fazer compras mais volumosas. Nas antigas mercearias, o balcão que separava clientes e vendedores, impedia o acesso mais amplo dos clientes às mercadorias. Os supermercados tentavam estimular as chamadas compras por impulso. Algo que o cliente ao ver se lembraria da necessidade ou compraria por ter despertado o desejo por aquele produto.
Foram inúmeras as ocasiões em que tivemos, eu ou meu pai, de discordar dos demais supermercadistas e manter o atendimento por telefone. Era um serviço que marcava nosso supermercado de forma positiva. Um atendimento personalizado às freguesas e fregueses. Estes, muitas vezes, eram conhecidos e amigos de décadas do seu Gimenez e da dona Kilda. Não dava pra deixa-los na mão!

terça-feira, 19 de maio de 2020

Tensão no Supermercado Gimenez: um assalto

Nem sempre tudo foi tranquilo no Supermercado Gimenez. Aliás, em uma pequena empresa, deve-se dizer, tranquilidade é um fenômeno pouco comum. As incertezas sobre a continuidade do negócio, as dificuldades de fluxo de caixa, pressões dos fornecedores, conflitos familiares, as visitas periódicas da fiscalização, problemas de relacionamentos entre empregados, dos patrões com os empregados, clientes insatisfeitos com algum produto ou atendimento, e assim a lista de situações que afetam a tranquilidade de um pequeno empreendimento vai crescendo. Mas, no geral, havia períodos de relativa estabilidade em que tudo corria como esperado.
Foi em um desses períodos, em que a vida corria tranquila, que passamos por um susto muito grande. Meu pai tinha um hábito que se provou perigoso. Todo dia pela manhã, de segunda a sexta, por volta das dez horas, ele pegava o dinheiro do faturamento do dia anterior, colocava em um saquinho marrom, desses que são usados ainda hoje pelo pequeno comércio, entrava no carro que ficava estacionado em frente ao prédio do supermercado e ia para os bancos. Em geral, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Banco América do Sul. Os dois primeiros na Avenida Paraná, que depois virou o calçadão. O último na Rua Sergipe.
Andava pelo centro de Londrina com o dinheiro nesse saquinho! Só acabava quando saía do último banco a ser visitado. Nesses momentos, fazia também o pagamento das duplicatas e outros compromissos. Eram tempos anteriores à Internet! Embora o faturamento não fosse muito volumoso, eventuais necessidades de empréstimos, faziam com que o relacionamento com mais de um banco, permitisse maiores chances de negociação e obtenção de alguma condição mais favorável.
Era uma rotina! Cinco vezes por semana. O mesmo comportamento se repetia no meio da tarde. Certo dia, na saída pela manhã, uma segunda-feira, assim que meu pai saiu pela porta, um homem deu voz de assalto. Pegou o dinheiro e fugiu em um carro. A reação de meu pai foi inesperada e rápida. No mesmo momento, um freguês habitual e amigo estava estacionando em frente. Meu pai correu até o carro do freguês, entrou e falou:
_ Segue aquele carro!
Coisa de filme policial, não? Minha mãe, os empregados e empregadas do supermercado ficaram atônitos. Sem muita noção do que estava acontecendo. E sem como se comunicar com meu pai. Não havia celulares naquela época. Horas depois, meu pai chegou. Muito nervoso e contou o que tinha acontecido.
Conseguiram seguir o carro dos bandidos. Eram dois. Foram até uma casa na Vila Casoni. Meu pai e o cliente foram até a delegacia que ficava na Rua Sergipe. Levaram alguns policiais até a casa. Os policiais entraram na casa. Os ladrões fugiram. Na casa, na garagem, ficou o carro. Dentro do porta-malas do carro, meu pai encontrou a escritura de uma propriedade em uma cidade do interior de São Paulo. Trouxe com ele. Um dos policiais envolvidos era um renomado corrupto da cidade. Meu pai desconfiou de algum acerto entre ele e os bandidos, mas não pode provar nada.
Após o relato, algumas das moças que trabalhavam nos caixas, lembraram-se da figura do assaltante. Ele tinha ido várias vezes ao mercado fazer pequenas compras e ficava algum tempo de conversa mole com as moças. Estava observando os hábitos de meu pai. Felizmente, ninguém ficou ferido. Mas, meu pai teve que negociar um empréstimo com um dos bancos para fazer face aos compromissos. O dinheiro levado era de um final de semana, que sempre tinha um movimento maior. Não sei em que banco ele conseguiu as melhores condições daquela vez.
A escritura da propriedade que era de um dos bandidos, conhecido na sua cidade, foi usada em um processo para tentar reaver o fruto do roubo. Muito tempo depois, houve notícias de que um dos ladrões havia sido preso no interior de São Paulo. Um deles procurou meu pai, certa noite, em nossa casa. Foi outro susto! Minha mãe e eu também estávamos na casa. Mas, não houve violência. Ele veio negociar algo a respeito do processo.
Nesse ponto minha memória da história já não é confiável. Mas, me lembro de que havia algo relacionado à mulher do que estava preso. Ela estava em dificuldades financeiras e precisava negociar a propriedade que estava presa no processo. O que lembro é que chegaram a um acordo. Meu pai conseguiu, muito tempo depois, recuperar parte do que havia sido roubado.
Depois desse assalto, passamos a variar os horários de saída para os bancos. Lembro-me que meu pai passou a usar uma pasta de couro para carregar o faturamento e os documentos. Os saquinhos marrons foram abandonados. Eu e meus irmãos, também, passamos a fazer este trabalho. Tanto é que, certa vez, tinha ido de carro para fazer isso. Depois, voltei a pé para casa. Esqueci o carro estacionado em algum lugar do centro da cidade. A distância não era muito grande. Entre um quilômetro e meio e dois! Uma caminhada agradável. Mas, esta é outra história.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Na época da Casa Gimenez, uma história do Lobo

Antes de se tornar Supermercado Gimenez era a Casa Gimenez. Me lembro, ainda adolescente, de ter participado junto com meus pais de uma série de reuniões na Associação Comercial e Industrial de Londrina. O propósito das reuniões, que eram patrocinadas por uma indústria do ramo de produtos de limpeza e higiene, era incentivar a transformação das mercearias locais em lojas de autosserviço. Era assim que se falava do novo formato de comércio que já se adotara em outros países, bem como alguns estados brasileiros. As reuniões aconteciam na sede da ACIL, à noite.
A Casa Gimenez era uma mercearia. Depois dessas reuniões, meus pais fizeram planos de ampliá-la. Para isso já havíamos desocupado a casa que ficava aos fundos da mercearia que comentei em outro post. Nós nos mudamos para a casa quase em frente à mercearia, na rua Paranaguá, que foi nosso lar até todos os filhos se casarem.
A casa da rua Goiás foi demolida. O prédio da mercearia foi ampliado. Com a forma de um "L", inclusive com um depósito no subsolo, surgiu o Supermercado Gimenez. Minha mãe sempre disse que foi o primeiro supermercado da cidade. Nunca chequei a informação, mas não tenho razão para não acreditar.
Tem uma história contada por minha mãe, e por meu pai também, que ocorreu muito antes dessa transformação. Meus irmãos e eu éramos ainda crianças. Meu pai tinha um cachorro - o Lobo - que, em minha lembrança, tinha porte e jeito de um pastor alemão. Mas, se a memória não me falha, era de raça indefinida. Vezenquando, havia algum atrito com alguma freguesa ou freguês por causa do Lobo. O cachorro estava sempre solto. Circulava pela mercearia e pelas calçadas em frente e ao lado. Na minha visão de criança, Lobo era muito dócil. Ainda mais comigo e meus irmãos e irmã.
Parece que um dia, no entanto, Lobo mordeu o filho de uma freguesa. Nada sério, mas a mulher era difícil. Fez um escândalo. Meu pai, que também não era muito fácil, respondeu à altura. Disse que era culpa do muleque que foi bolir com o Lobo. A coisa azedou.
A freguesa ligou na prefeitura. Algum tempo depois, veio a famosa "carrocinha" que passava pelas ruas da cidade recolhendo cães soltos ou abandonados. Lobo já tinha escapado várias vezes do laço dos funcionários da prefeitura. Apesar do tamanho, era ágil. Era com um laço que os cães eram presos e colocados na "carrocinha".
Os caras tentaram laçar o Lobo mais uma vez. Ele escapou e entrou no jardim de casa. Chamaram meu pai na mercearia. Explicaram que tinham que levar o Lobo para que ficasse 24 horas em observação. Por causa da mordida no muleque. Meu pai não concordava. Não deixava ninguém chegar perto do Lobo. Os caras chamaram o veterinário da prefeitura. Amigo de meu pai. Ele explicou a situação. Convenceu meu pai. Mas, ninguém esperava o que seu Gimenez faria. Meu pai não deixou levarem o Lobo na "carrocinha". Disse:
_ O Lobo não é cachorro pra "carrocinha"! Vocês vão na frente. Lobo vai de carro comigo!
Tudo acertado, a carrocinha foi na frente. Meu pai levou Lobo algum tempo depois. Não vi, mas sou capaz de imaginar o sorriso malandro de vitorioso no rosto dele. E, no dia seguinte, foi buscá-lo. Felizmente, nenhum problema com Lobo. Para alívio de meu pai e para a mãe do muleque! E Lobo continuou flanando livre e leve pelas calçadas da Casa Gimenez.

domingo, 17 de maio de 2020

Algumas lembranças e memórias do Supermercado Gimenez

Momentos de minha primeira vida profissional. Em 1977, retornei a Londrina. Antes, em 1974, conclusão do colegial (antigo ensino médio) e cursinho. Na rua Tamandaré na Liberdade em São Paulo. Pensão da dona Genoveva e seu Orlando e cursinho Anglo. Do começo de 1975 até meados de 1976, engenharia no ITA. Me dedicava mais ao basquete que aos estudos. Depois de muitos anos, um calouro se juntava ao time principal do ITA. Sem muita modéstia, tinha minhas qualidades no esporte. Desenvolvidas no Canadá. Clube da minha infância e adolescência de classe média.
Em meados de 1976, desencantado com o curso de engenharia, fui para Campinas. Estudar Física. Durou apenas um semestre. Valeu mais pelas apresentações da Orquestra Sinfônica de Campinas que assistia no teatro da cidade uma vez por semana. À noite. Apreciava as viagens de ônibus gratuitas do centro até o campus em Barão Geraldo Sinal evidente de valorização do ensino superior. Tão diferente dos dias atuais!
Final de 1976, o retorno a Londrina. Em fevereiro de 1977, a pergunta: quando volta para Campinas? A difícil resposta: não voltaria. Decidido a ficar em Londrina. Começei a trabalhar com meus pais. No meio do ano, vestibular para Administração. Bem sucedido. Quatro anos depois, me torno professor após a graduação. Nove dias depois da formatura.
Nesses anos, a vida de trabalho na empresa familiar. Um breve afastamento de alguns meses. Mas, a pressão de pai e mãe levaram ao retorno. Uma experiência única. Em um breve período, sem a presença do pai. Fundador da pequena empresa, a nosso pedido, se afastara da gestão. Com mãe e irmãos, uma tentativa de independência da autoridade paterna. Depois de alguns meses, o inevitável retorno desta autoridade. O convívio se manteve até o afastamento para o mestrado. Entre 1982 e 1984. Depois,a escolha da carreira universitária. A princípio concomitante com a empresa familiar. Depois exclusiva.
Um período de duração imprecisa, esse meu trabalho na pequena empresa dos pais. A memória pode enganar. Além disso, como escrevi na introdução de meu primeiro livro - O estrategista na pequena empresa - na infância e adolescência houve a vivência no espaço da empresa dos pais. Espaço de brincadeiras e pequenos trabalhos. Ajuda que alguns desavisados, condenariam como trabalho infantil. Nada disso! Preparação para a vida, assim como a escola que frequentávamos.
Memórias de minha história. Memórias, também, que me contaram.
Me lembro do Professor Hermas, meu professor de matemática no colegial. Depois, colega da Universidade Estadual de Londrina. Ele na Economia. Eu na Administração. Volta e meia me contava da lembrança de meu pai, carroceiro, vendendo bananas no bairro.
Me lembro de minha mãe falando do tubarão da rua Paranaguá. Alcunha que um jornalista deu ao meu pai em algum momento dos anos 50 do século passado. Tempos de racionamento. Seu Gimenez escondia alguns produtos essenciais - arroz, farinha, açúcar - para seus clientes mais fiéis no bairro. Um dia, uma cliente chata e não atendida fez a denúncia. Não deu em nada, além da breve nota no jornal. Não era a Folha de Londrina.
Outra história que minha mãe contava. Sobre a freguesa cujo filho trabalhava na prefeitura. Apareceu oferecendo materiais escolares. De uma campanha escolar do governo do estado. Oferta polidamente recusada. Não dava para vender os produtos com marcas da campanha que algum funcionário subtraíra indevidamente das crianças em idade escolar.
Mas, nem sempre se conseguia resistir à corrupção. Me lembro de um funcionário de uma empresa estatal. Comprava em nome da empresa, produtos de uso cotidiano. Limpeza, café, açúcar. Pedia para superfaturar. Tirava a diferença em mercadorias para uso próprio. Eu fazia a nota fiscal. Um certo desconforto! Mas, sobrevivi a esta culpa. Tão pequena em comparação a outras culpas não minhas.
E o caso do fiscal da receita estadual! Conhecido da família. Freguês do mercado. A mordida foi grande. Em troca de uma multa menor, alguns meses de compra mensal. Gratuita e entregue na casa do próprio.
E a do marido fazendeiro. Também amigo da família. Quase parente. Mantinha a mulher quase presa em casa. Ela raramente podia sair pra visitar as amigas. Uma vez por mês, ele ia fazer compras. Duas compras praticamente iguais. Uma para a casa da família na cidade. Outra para a teúda e manteúda. Antiga denominação de amante. Esta vivia na fazenda. A primeira compra mandava entregar. A segunda, ele mesmo levava na caminhonete de fazendeiro. Esta memória era contada por minha mãe.
Outras memórias já apareceram em posts desse blog. Mas, além das acima, outras não. Quer conhecer mais uma?
Me lembro de meu irmão mais velho - Christovam. Ensinando Sebastião, entregador de bicicleta, a dirigir a Kombi do mercado. Sebastião, todo confiante, entrou com a Kombi na árvore que ficava na calçada. Bem na esquina. Ainda bem que os estragos materiais foram poucos. E nenhum dano corporal.
Christovam, também, misteriosamente, gostava de fazer algumas entregas. No lugar de José, o motorista. Em especial, quando as entregas eram na casa de uma loura da Juscelino Kubitschek. Eu não entendia. Ingênuo, perguntei para Graça o porquê. Ela atuava no caixa e era uma das mais antigas funcionárias do mercado. De confiança. Ela riu e me disse:
_ Não percebeu como demora essa entrega! Algo mais acontece além da entrega.
Graça não precisou dizer mais nada. Eu era ingênuo, mas não era tonto!
O convívio com meu pai nem sempre era pacífico. Algumas vezes, nos desentendíamos. Em poucas vezes, ele cedia a meus argumentos. Na maioria das vezes, encerrava o assunto com a frase: você tem muita gramática, mas pouca prática! Eu só podia me calar. Fazer o quê?
Certa época, todos os filhos casados, era necessário manter um esquema de remuneração adequada para cada um. Tentei convencer meu pai disso. Ele não aceitava. Dizia que podia ir pagando as despesas de cada filho conforme fosse necessário. Coisa de empresa familiar. Eu, na vã esperança de profissionalizar um pouco a empresa, combinei com meus irmãos uma retirada semanal para cada um. No sábado à noite, após o fechamento do mercado, eu recolhia o dinheiro dos caixas e fazia o registro do faturamento diário. Tirava a parte de cada um. Meu pai, contrariado, fingia que não via. Funcionou bem. Mas, algum tempo depois decidi ir para São Paulo fazer mestrado em Administração na Universidade de São Paulo. Quando voltei, acho que ainda trabalhei com meus pais e irmãos por algum tempo. Mas, a carreira universitária estava me chamando.
São memórias que guardo comigo. Algumas vividas. Outras contadas. Histórias de uma vida pequeno burguesa, que um intelectual pedante não hesitaria em assim adjetivar. Para mim, acima de tudo, são memórias de vida. Sem adjetivos. Que registro para que minhas filhas - Paloma e Fernanda- e meus enteados - Amanda e Marcelo - possam passar à frente.
Memórias que fazem parte de minha trajetória e que ajudam a compreender o homem que as viveu.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

REFLEXÕES DE UM EDITOR DE DOIS PERIÓDICOS QUASE MARGINAIS E QUASE ANÁRQUICOS

A primeira edição da Revista Livre de Sustentabilidade e Empreendedorismo foi publicada ao final de abril de 2016. Quase cinco anos atrás. Naquele momento, eu já contava com uma experiência de dois anos como editor da Revista Livre de Cinema, cuja história de criação contei em um artigo publicado na Revista de Empreendedorismo e Inovação Sustentáveis (veja o texto aqui http://revista.isaebrasil.com.br/index.php/EGS/article/view/15).

As duas publicações compartilham um princípio editorial que expressei, pela primeira vez, ao conceber a Revista Livre de Cinema. Naquele momento, em 2014, eu era aluno de um curso de especialização em cinema na Universidade Tuiuti do Paraná. Refletindo sobre minha trajetória acadêmica até então, concentrada nos campos do empreendedorismo e da gestão de pequenas empresas, havia algo que me incomodava.

Esse incômodo estava associado à questão da prática usual de avaliação ad hoc dos textos publicados em periódicos dessas duas áreas. Como em outras áreas de conhecimento, os textos antes de serem publicados em periódicos passam por uma tripla avaliação. Em primeiro lugar, em geral, um editor faz uma avaliação prévia. Caso o texto esteja adequado aos requisitos do periódico e tenha qualidade suficiente, na opinião do editor, este vai para uma segunda etapa de avaliação. Nesta etapa, em geral, dois avaliadores tidos como experts no tema do texto, são convidados a avaliarem o trabalho e emitirem uma recomendação ao editor. Esta recomendação, em geral também, pode ser uma, entre três alternativas: a) rejeitar o trabalho, pois não tem qualidade para ser publicado; b) solicitar alterações, correções ou complementações no trabalho, para uma posterior reavaliação; e c) aceitar o texto para publicação como foi submetido.

Esses procedimentos, se acredita, aumentam a qualidade daquilo que é publicado pelos periódicos, pois só serão publicados textos que tenham sido aprovados por três experts e que atendam requisitos mínimos de qualidade de redação e de rigor na construção do conhecimento.

Mas, qual era o meu incômodo com isso? Pois é, como estudioso dos campos que mencionei acima, por dever de profissão, ao longo dos últimos 40 anos, tenho lido muita coisa que foi publicada em periódicos brasileiros e estrangeiros. Muita vezes, encontrei conhecimento novo e valioso! No entanto, também, muitas vezes, me deparei com textos que deixavam muito a desejar em termos de qualidade de redação e rigor de construção de conhecimento. Ou seja, em minha experiência, o sistema não funciona muito bem!

Assim, em determinado momento do ano de 2013, comecei a pensar na possibilidade de criar, com recursos próprios, um periódico no campo do Cinema, cujo estudo estava me atraindo fortemente. Mas, sendo novato no campo – um ilustre desconhecido – resolvi fazer algo diferente: criar um periódico onde não haveria avaliação dos textos submetidos para publicação. O princípio central do periódico seria este: O leitor é o juiz da qualidade de qualquer texto que leia. E, com duas consequências desse princípio. Se o leitor não gostar do texto, ele será esquecido. Se o leitor gostar, pode ser que o texto seja citado por ele em algum momento.

Dessa forma, meu papel enquanto editor se restringiria a decidir se os textos que fossem encaminhados à Revista Livre de Cinema estavam no escopo editorial da mesma. Caso positivo, os textos seriam publicados em ordem de recebimento. Por outro lado, se o texto não fosse consistente com o escopo editorial da revista, este seria rejeitado.

A ideia era posicionar a Revista Livre de Cinema à margem do sistema tradicional de publicação de periódicos. Um empreendimento quase marginal! Mas, ao longo do tempo, você vai ver, o sistema é forte e acabaria arrastando o periódico para suas franjas. O mesmo aconteceria com a Revista Livre de Sustentabilidade e Empreendedorismo.

Ao mesmo tempo, penso que esta experiência era quase anárquica! Quase sem regras! No entanto, havia um mínimo necessário de regras próprias criadas por mim, bem como externas, que tinham que ser seguidas para que a Revista Livre de Cinema pudesse ser reconhecida como um periódico. Entre estas, por exemplo, a existência de um comitê editorial e periodicidade regular para obter o ISSN. Entre as primeiras, algumas regras de formatação dos textos, extensão e categorias de textos a serem publicados.

A experiência foi bem sucedida. A Revista Livre de Cinema entrou, em 2020, no seu sétimo volume, com publicações ininterruptas de três edições regulares ao ano. Entre 2014 e 2019 foram 18 edições regulares (quadrimestrais) e uma edição especial em 2017. O primeiro número do volume 7 foi publicado em janeiro último (acesse aqui http://relici.org.br/index.php/relici/issue/view/20).

Contando com esta última edição, foram publicados 162 artigos, resenhas ou notas e comunicações, cujo conteúdo integral foi acessado 7.706 vezes. Estes artigos foram escritos por 191 autores, entre os quais alguns publicaram mais de um texto.

Em 2016, já com dois anos de experiência coma Revista Livre de Cinema, decidi replicar a ideia no meu campo de atuação acadêmica principal. Foi então que surgiu a Revista Livre de Sustentabilidade e Empreendedorismo. A princípio segui a mesma estrutura: periodicidade quadrimestral, com muitos amigos e amigas convidados para comporem o comitê editorial, e, assim, obtendo ISSN e existência formal como periódico. Mas, aqui havia um risco maior. Eu não sou um ilustre desconhecido nesse campo! Como meus colegas da academia encarariam esse novo empreendimento? Tive reações mistas. Alguns gostaram e apoiaram. Outros se mantiveram distante. Mas, não me lembro de nenhuma condenação da ideia. Pode ser que tenham enxergado a Revista Livre de Sustentabilidade e Empreendedorismo como uma excentricidade de um velho professor titular do campo. E, embora estranha, deveria ser ao menos tolerada!

Talvez devido a meu reconhecimento nos campos do empreendedorismo e gestão de pequenas empresas, logo ao final do primeiro ano, percebi que havia espaço para alterar a periodicidade da revista. Tinha um grande número de textos submetidos. Assim, no segundo volume, a periodicidade passou a ser trimestral. Ao final do segundo ano, o estoque de textos submetidos estava bem grande. Nova alteração de periodicidade! Dessa vez, passou a ser bimestral. Entre 2016 e 2019, foram publicados 19 edições regulares. Além disso, em 2018 houve uma edição especial e em 2019, foram duas edições especiais. O primeiro número de 2020, também, já foi publicado (acesse aqui http://www.relise.eco.br/index.php/relise/issue/view/22).

No momento que escrevo este texto, há em estoque textos suficiente para mais cinco edições. O mesmo ocorre com a Revista Livre de cinema, embora com menor intensidade. Para esse ano, já conta com dez artigos programados, o que garante o segundo número do ano integralmente e metade do terceiro. Penso que não pode deixar de serem vistas como uma experiência bem sucedida!

Também contando com a edição de janeiro, foram publicados 229 artigos, resenhas ou notas e comunicações em todos os números da Revista Livre de Sustentabilidade e Empreendedorismo. Nela, o número de acessos aos textos integrais chegou a 20.115. Nesse período, foram 569 autores, vinculados a 131 instituições de ensino e pesquisa, das quais onze estrangeiras. A maioria dos autores com apenas um artigo. Mas, observei algo que denomino uma disfunção: alguns autores começaram a submeter inúmeros textos para publicação. Assim, acabei criando uma regra adicional para a revista, limitando o número de artigos por autor a um por ano, exceto se for o caso de alguma chamada temática. Mais uma quebra da minha vontade de ser quase anárquico!

Contudo, penso que agi de forma acertada. Minha ideia com ambas as revistas é que elas se tornassem canais de divulgação de textos que não conseguem furar a barreira da tripla avaliação. E, assim, gosto de pensar que esta oportunidade deve ser amplamente utilizada e não se concentrar em poucos autores. Quando um autor resolve concentrar suas publicações em minha revista, está tirando a oportunidade de outros. Uma regra útil!

Quando iniciei a Revista Livre de Cinema e, depois, a Revista Livre de Sustentabilidade e Empreendedorismo, não tinha nenhuma preocupação ou intenção de que ambas fizessem parte do famigerado Qualis da CAPES. Mesmo porque, imaginava que seriam periódicos marginais ao sistema. No entanto, como as duas revistas publicaram alguns textos cujos autores estavam vinculados a programas de pós-graduação brasileiros, o inevitável aconteceu! Em 2017, as duas revistas foram incluídas no Qualis 2013-2016. As qualificações variaram entre B4 e B5 para a Revista Livre de Sustentabilidade e Empreendedorismo, e B4, B5 e C para a Revista Livre de Cinema, dependendo da área de conhecimento.

Independente dessa qualificação, mantive o princípio básico das duas revistas: o leitor é o juiz da qualidade dos textos que lê. Assim, se um texto for bom, este será disseminado pelos leitores. Caso contrário, este cairá no esquecimento. Aliás, como ocorre com muitos textos em periódicos mais ortodoxos.

Apesar disso, por esses dias, fiquei curioso em avaliar qual tem sido a recepção dos textos das duas revista junto aos leitores. Outra curiosidade minha, dizia respeito aos motivos que levaram os autores a buscarem essas duas revistas “quase marginais” para publicarem seus textos

Com isso em mente, fiz dois levantamentos. O primeiro, no Google Acadêmico, para verificar se havia textos das duas revistas que teriam recebido citações em outras produções científicas. O segundo, por mensagem de correio eletrônico para autores dos textos publicados, indaguei sobre os motivos que levaram a escolher a revista para disseminação de seus textos. Os resultados, pelo menos para mim, parecem interessantes! Vamos a eles.

No caso da Revista Livre de Cinema, 22 artigos tiveram pelo menos uma citação. O total de citações que estes artigos receberam chegou a 50, das quais treze foram em outros artigos publicados em periódicos. Em segundo lugar, foram onze citações em trabalhos apresentados em eventos científicos e onze citações em dissertações de mestrado. Outras citações ocorreram em trabalhos de conclusão de curso, monografias de graduação, teses de doutorado e capítulos de livro.

O artigo mais citado da Revista Livre de Cinema e, também, um dos mais acessados da revista foi o “O empreendedorismo no campo da produção cultural: analisando a dimensão privada da ação empreendedora no audiovisual”. Por incrível que pareça é um artigo no meu campo preferido de pesquisa – empreendedorismo – que trata do setor de cinema. Excelente coincidência e um privilégio meu poder ter sido seu editor (veja o texto aqui http://relici.org.br/index.php/relici/article/view/10).

Por outro lado, no caso da Revista Livre de Sustentabilidade e Empreendedorismo, os números foram um pouco maiores. Foram 56 artigos citados 104 vezes em outras publicações. O maior número de citações foi em artigos de outros periódicos (43), seguido por 24 citações em trabalhos apresentados em eventos científicos. A seguir com 16 citações surgiram as dissertações de mestrado e igual número em monografias de graduação. Também houve citações me capítulos de livros e teses de doutorado.

O artigo, “A gestão ambiental em Minas Gerais: uma análise do sistema de gestão ambiental e do rompimento da barragem de rejeitos em Mariana, foi um dos mais acessados e o mais citado, até o momento, entre os publicados na Revista Livre de Sustentabilide e Empreendedorismo (veja o texto aqui http://www.relise.eco.br/index.php/relise/article/view/660.

Em termos de percentuais, 13,7% dos artigos da Revista Livre de Cinema já apresentaram algum impacto em termos de citação. Na Revista Livre de Sustentabilidade e Empreendedorismo, foram 24,5%, ou seja, quase um quarto dos artigos repercutiu em outra publicação.

Por fim, quanto às motivações para publicar nas duas revistas, os autores foram inquiridos com estas alternativas: 1. Para atender convite do editor; 2. Porque a revista está incluída no QUALIS; 3. Por sugestão de um(a) colega de pesquisa ou de co-autor; 4. Porque seu texto foi indicado para fast track de algum evento científico; 5. Em função dos temas indicados pelo título da revista; 6. Porque os textos submetidos à revista não passam por avaliação duplo-cega e são publicados, após decisão do editor, caso estejam no escopo da mesma; 7. Para atender algum requisito de avaliação da instituição à qual você está(va) vinculado. O motivo de número 4 foi perguntado apenas para os autores da Revista Livre de Sustentabilidade e Empreendedorismo que já integrou o fast track de alguns eventos. Mais uma forma de entrar nas franjas do sistema!

Devo confessar que esperava que o motivo “6 - Porque os textos submetidos à revista não passam por avaliação duplo-cega e são publicados, após decisão do editor, caso estejam no escopo da mesma” estivesse entre os mais frequentes. Mas, ao mesmo tempo, de vez em quando percebo que os autores dos textos encaminhados ás duas revistas nem sempre se dão conta dessa regra. Apesar dela ser explícita no site das duas revistas, Muita gente submete textos sem ler as normas dos periódicos, não é? Mas, então quais foram os resultados dessa enquete?

Cada autor poderia indicar até três motivos para ter enviado textos para publicação nas revistas. A amostra de autores que responderam não foi muito grande, mas me sinto satisfeito, pois parece indicar um padrão. Apesar de surpreendente!

O motivo mais citado foi em função dos temas sugeridos pelos títulos das (32,7%) do total.  Isto me parece ser um bom resultado. As revistas conseguem atrair interessados em seus campos de conhecimento. Mas, o segundo motivo, com 27,9% do total foi o fato das revistas estarem no Qualis. Olha o sistema puxando as revistas para suas franjas! Em terceiro lugar vieram as submissões de texto por sugestão de colega de pesquisa ou co-autor (15,4%).

Em quarto lugar, há o motivo de atender algum requisito de avaliação da instituição de vínculo dos autores (8,6%). Tenho percebido que, no caso da Revista Livre de Sustentabilidade e Empreendedorismo, tem havido alguma concentração de textos oriundos de algumas instituições. Me parece que são instituições exigindo que seus pesquisadores, em diferentes níveis de atuação, comprovem publicações em periódicos. Por esse motivo, também, tenho controlado o número de artigos publicados por autores de uma mesma instituição ao longo do ano. Mais uma regra! É difícil ser anárquico!

O antepenúltimo motivo na lista foi o atendimento de convite do editor com 6,7% das respostas. Esta é uma prática que exercito de forma regular nos dois periódicos. Quando leio textos apresentados em evento científico que julgo interessantes para minhas revistas, mando mensagem de correio eletrônico convidando os autores para submeterem seus textos.

Mas, o motivo ligado ao princípio central das revistas veio em penúltimo lugar dos indicados. O fato dos textos submetidos às revistas não passarem por avaliação duplo-cega e serem publicados, após decisão do editor, foi apontado em apenas 5,8% das respostas. Será que os autores ficaram constrangidos de indicar esta resposta?

Por fim, a indicação para fast-track foi o útlimo motivo apontado. Memso porque, ainda foram poucos os eventos em que a Revista Livre de Sustentabilidade e Empreendedorismo integrou o conjunto de periódicos para fast track.

Encerrando este texto, devo registrar que esta jornada empreendedora de criação, manutenção e edição de dois periódicos quase marginais e quase anárquicos tem sido uma experiência de vida gratificante. Quase todo dia, dedico algum tempo a essa tarefa que me atribui. Quando me perguntam sobre o que me leva a fazer isso, penso na famosa oposição entre razão instrumental e razão substantiva. A vida é muito melhor quando conseguimos guiá-la por motivações substantivas, não é?

As duas revistas têm acesso livre e não cobram nenhuma taxa dos autores para publicação de seus textos. Não há motivação instrumental para fazê-las. Por outro lado, são as motivações substantivas que são gratificadas quando autores, ao serem indagados sobre outros motivos para submeterem seus textos às revistas fazem comentários como estes:

Gosto muito do escopo da sua revista. Creio que tem um potencial muito bom para disseminar conhecimento científico. (um autor da Revista Livre de sustentabilidade e Empreendedorismo)

Porque sempre gostei de ler os textos publicados na RELICI e queria compartilhar alguns pensamentos nela (um autor da Revista Livre de Cinema).

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

A jovem Tina e o teto de vidro na pequena empresa

Na semana passada, tive a oportunidade de participar por dois dias do IV Colóquio Internacional de Cinema e História na UFPR. Obviamente, não esperava encontrar nada que fosse relacionado ao empreendedorismo ou a pequenas empresas no evento. Meu interesse era acompanhar o evento, apenas como ouvinte, na esperança de aprender um pouco mais sobre o campo dos estudos em cinema que também me interessam muito. O natural era que, talvez, eu estivesse escrevendo um post em meu blog Leitura em Cinema (https://leiturasemcinema.blogspot.com/), após uma noite e um dia imerso em apresentações, palestras e conferências sobre cinema. Mas, não. Aqui estou eu escrevendo no blog de Empreendedorismo e Estratégia em Pequenas Empresas!
Pois é! Quem poderia imaginar que um trabalho sobre mulheres, personagens e gênero no cinema poderia me inspirar um post sobre pequena empresa. Às vezes, me impressiono com as conexões que nossa mente faz, nos trazendo à lembrança memórias de décadas atrás.
Um dos trabalhos que assisti no dia 4 pela manhã foi o "Modos de subjetivação de mulheres negras em adaptações cinematográficas da literatura de Jorge Amado nos 1970 e 1980". De autoria de Renata Melo Barbosa do Nascimento, da UNB. O trabalho me trouxe à memória lembranças muito vívidas de alguns dos filmes que Renata usou para fazer sua análise. No entanto, mais que isso, foi no discurso de Reanta que surgiu algo que me fez lembrar de um episódio que envolveu uma das trabalhadoras do Supermercado Gimenez - a Tina - e eu, um dos filhos dos donos daquela pequena empresa. Tina não é o verdadeiro nome dela, mas no título desse post faço uma brincadeira com o nome de Tina e, aqueles que a conheceram, vão imediatamente lembrar do nome correto.
Na introdução de sua fala na sessão 3 do colóquio, Renata abordou a questão dos vários feminismos. Isso mesmo, no plural. E, em especial, fez uma distinção entre o feminismo geral e o feminismo negro. Não pretendo aqui sintetizar a fala dela, mas o que foi marcante para mim, foi a ideia de que as mulheres negras, além de terem que lidar com a discriminação de gênero, lidam ainda com a discriminação de raça. Foi nesse momento da fala de Renata que me veio à lembrança o episódio com Tina. Vamos a ele, então.
Isto deve ter ocorrido entre o final dos anos 70 ou começo dos anos 80 do século passado. Ou seja, lá já se vão perto de quatro décadas de história. Naquela época, eu ainda era estudante de administração, que havia decidido cursar porque tinha planos de ficar trabalhando com meus pais e irmãos no Supermercado Gimenez. Tina estava trabalhando conosco e, assim como eu, também era estudante de administração na UEL. Até onde eu me lembro, Tina foi uma das poucas trabalhadoras do Supermercado Gimenez que fez um curso universitário. Tina era um pouco mais jovem que eu e negra. Na época eu estava entre 23 e 24 anos. Pode ser que esta história tenha ocorrido no segundo semestre de 1981. Mas, não tenho certeza. Nesse momento, recém graduado, eu já estava atuando como professor. De qualquer forma, o ano preciso não afeta muito o singificado da história. Embora Tina não tivesse nenhum cargo formal de comando naquela pequena empresa, devido à sua formação em andamento, ela já nos ajudava na coordenação de algumas tarefas.
Pois então, certo dia, Tina e eu estávamos conversando e ela me informou que estava planejando pedir demissão da empresa. Eu fiquei surpreso com a notícia e tentei dissuadí-la. Falei dos planos que tinhamos e da ideia de uma possível filial para o supermercado em outro bairro da cidade. Na época, meus pais tinham adquirido alguns terrenos com o propósito de construir um prédio para a primeira filial do Supermercado Gimenez. Tinham até feito um esboço de planta. Mas, a ideia acabou não acontecendo. No entanto, naquele momento da conversa entre nós, ainda era uma possibilidade. Falei para Tina que, quando ela concluísse seu curso, talve pudesse vir a ocupar algum cargo de chefia na empresa. A resposta dela foi contundente. Tanto é que, quase 40 anos depois, ainda não esqueci. Não foram exatamente essas palavras, mas ela disse algo assim:
_Fernando, aqui eu nunca vou ter uma chance. Tem seus pais, tem você, tem seus irmãos! Nunca vou conseguir ser chefe aqui!
De fato, depois de algum tempo, ela pediu demissão. Mutos anos atrás, ouvi dizer que ela tinha falecido. Mas, para ser honesto com você, não tenho certeza. A memória da gente, às vezes, nos engana!
Mas, a essa altura, você deve estar se perguntando: 
_ E daí? O que é esse teto de vidro? O que isso tem a ver com feminismo? E com a Tina?
Então, vamos por partes:
Teto de vidro é uma expressão usada nos estudos de gênero no campo das organizações que, de forma resumida, significa que há uma barreira transparente (teto de vidro) que impede que as mulheres subam além de determinado nível hierárquico nas grandes organizacões. Elas são até capazes de "ver" os níveis superiores, já que o teto de vidro é transparente, mas não são promovidas para ocupar cargos nesses níveis. 
Em geral, este fenômeno é tratado em estudos sobre grandes empresas. Não me lembro de ter visto alguém discutindo essa ideia no âmbito de pequenas empresas.
O caso de Tina veio à minha memória quando ouvi a idéia dos feminismos múltiplos, em especial o feminismo negro. Tina era uma jovem mulher negra trabalhando em uma pequena empresa. No seu discurso, na época, só ouvi o lamento de alguém que não pertencia à família proprietária daquela pequena empresa. Mas, certamente, hoje, tenho certeza que o teto de vidro que Tina enxergava era tríplice: não ser da família, ser mulher e ser negra! Ou seja, apesar de transparente, muito mais difícil de romper!
A essa altura da minha vida, fica esse resgate de mais um episódio na história do Supermercado Gimenez, personagem frequente desse meu blog. Em especial, neste post que muito me emocionou: https://3es2ps.blogspot.com/2012/03/zezinhoooo-vai-la-no-gimenez.html.
E como sempre ocorre, a história acabou sendo muito diversa dos planos. Eu deixei de trabalhar com meus pais e me tornei professor. Tina, provavelmente, já morreu, mas trabalhou durante alguns anos em outras organizações de Londrina. Algumas poucas vezes, nos encontramos pelos caminhos da pequena Londrina dos anos 80. E o Supermercado Gimenez foi vendido há muitos anos também.
 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Empreendedores de si?


Sinal fechado. Uma esquina curitibana. Rapaz pendura seu produto no retrovisor dos carros que param. Por razão que desconheço, não usa o termo empreendedor. Escapa do modismo? Poderia ser um sinal de esperança! Mas, não é! Sintoma de uma sociedade cada vez mais excludente. Isso que é! Cada vez mais numerosos. Jovens sem chance! Alguém os convenceu das possibilidades da meritocracia. Esqueceram de avisá-los das impossibilidades da vida! Como competir com aqueles incluídos no sistema educacional? E seguimos celebrando as estatísticas nacionais sobre o empreendedorismo. Com poucos empreendedores! E um número cada vez maior de "se viradores"! Erroneamente chamados de "empreendedores de si".

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Lava Jato, empreendedorismo e a mulher de César

Empreendedorismo é uma das palavras mais usadas contemporaneamente. Vezenquando, gosto de alertar aqueles e aquelas que estudam o tema comigo sobre os limites que devem existir para uma ação empreendedora, bem como sobre as limitações desse fenômeno para a solução das desigualdades socioeconômicas de nossa sociedade.
Sobre os primeiros, o ato de empreender tem que ser realizado sob uma consciência ética. Não se pode empreender sem levar em consideração possíveis efeitos danosos que possam surgir quando qualquer empreendimento é criado. Previsíveis ou imprevisíveis, é obrigação da empreendedora ou empreendedor agir de forma a evitar danos previsíveis ou para compensar os efeitos dos imprevisíveis sobre pessoas ou comunidades.
No que diz respeito às limitações do empreendedorismo, não se pode ter uma fé cega sobre as receitas que sugerem que o empreendedorismo é o caminho para todos. E que só não são bem sucedidos aqueles e aquelas que não se empenham. Infelizmente, essa é uma visão ingênua do empreendedorismo que leva muitos a deixarem de lado a solidariedade com os que não conseguem empreender e "resolver" sua vida. Em especial, me alarma ver muitos jovens querendo empreender sem recursos e competências pata tanto. É um caminho para o desastre.
Mas, as notícias desse final de semana sobre os planos de negócios de procuradores da Lava Jato me levaram a outra reflexão. Esta notícia me fez pensar que o famoso provérbio sobre a mulher de César deveria ser um lema do empreendedorismo. Ou seja, ao empreendedor não basta ser honesto, é preciso parecer honesto.
Quero dizer com isso que aqueles que empreendem devem considerar, sempre, em primeiro lugar o bem estar coletivo e não o interesse pessoal. Difícil, mas não impossível.
Pena que parece que no caso dos procuradores, o provérbio só foi seguido na sua parte final. Isto é estavam querendo parecer honestos. Quanto à primeira parte do provérbio, me parece que foi deixada pra lá!

domingo, 5 de maio de 2019

Brasil Empreendedor?

Hoje, enquanto esperava um ônibus para ir ao aeroporto, li uma notícia sobre estudos do governo para incluir motoristas de aplicativos (uber e outros) entre as categorias de serviços  passíveis de enquadramento como Micro Empreendedor Individual (MEI).
Quem acompanha meus escritos no blog 3es2ps.blogspot.com, talvez tenha tido a oportunidade de ler um post em que critico a substituição de relações de trabalho por contratos de MEIs. Já faz alguns anos. A coisa parece piorar!
Essa decisão de incluir estes motoristas como MEIs, certamente, aumentará em alguns milhões o número de empreendedores brasileiros. Este acréscimo, fatalmente, acabará sendo comemorado em algum momento como um indicativo de um Brasil Empreendedor!
O que será, para mim, mais um falso brilhante nas estatísticas brasileiras!
Cansado de esperar o ônibus e com medo de me atrasar para o vôo, chamei um uber. Marcos chegou alguns minutos depois. Inevitavelmente, como sempre faço, pergunto há quanto tempo atua como motorista. A resposta: três meses. Segunda pergunta: como vão os negócios? Resposta: dá pra viver, mas trabalho de dez a doze horas por dia. Sem folga semanal. Não é a mesma coisa de trabalhar oito horas por dia em uma empresa, ele completa a resposta.
Comento com ele a notícia que li. Ele responde que já tinha ouvido falar. Esperançoso de que isso possa assegurar algum benefício futuro. Penso comigo: uma aposentadoria de um salário mínimo! Mas, guardo o pensamento para mim.
Alguém pode me dizer: assim como Marcos, muitas empreendedoras e muitos empreendedores têm longas jornadas diárias de trabalho.
Verdade? Pode ser. Mas, qual a diferença? Para mim, empreendedores e empreendedoras fazem suas escolhas sobre como atuar no mercado. Exercem sua autonomia criativa e empresarial. Marcos, não! Como motorista de aplicativo jamais será um empreendedor. Faz o que lhe mandam, nas condições que lhe determinam. É um empregado sem direitos trabalhistas!
Enquanto isso, seguimos celebrando o Brasil Empreendedor!
Me poupem!

domingo, 10 de março de 2019

O primeiro artigo sobre empreendedorismo publicado em um periódico brasileiro

Em dezembro de 2014, em um post neste blog, mencionei um texto do Profressor Bresser Pereira como uma das primeiras referências a falar de empreendedorismo em periódicos brasileiros (https://3es2ps.blogspot.com/2014/12/estudos-sobre-empreendedorismo-no_5.html). Naquele ano, eu estava envolvido em estudos sobre o campo de pesquisa em empreendedorismo no Brasil que continuaram nos anos seguintes.
O momento mais significativo destes estudos, ao menos para mim, ocorreu em maio de 2017, quando publiquei um ebook com os resultados: Empreendedorismo - uma bibliografia de artigos publicados em periódicos brasileiros. Na introdução do livro, comentei, mais uma vez, sobre o artigo do Professor Breser Pereira poder ser visto como fundador do campo de estudos em empreendedorismo no Brasil. O livro pode ser acessado neste link: https://www.dropbox.com/s/8bayerejmtevqpv/Empreendedorismo%20-%20uma%20bibliografia%20de%20artigos%20publicados%20em%20peri%C3%B3dicos%20brasileiros.pdf?dl=0.
Em 2019, decidi fazer uma revisão dos resultados que publiquei em 2017. Retomei as buscas nnas bases SPELL, SCIELO e Google Acadêmico usando os mesmos procedimentos adotados para a publicação do livro em 2017. Sabia que encontraria mais artigos publicados ao longos dos anos 2000, visto que muitos periódicos brasileiros estão colocando na Internet os arquivos de suas edições que, antigamente, eram apenas impressas. De fato, tendo completado a revisão dos artigos publicados até 2007, localizei mais 140 artigos que não estão listados em meu livro. Minha intenção é publicar ao final de 2019, uma edição revista e ampliada do livro com a listagem dos artigos publicados até 2018. Estou no meio do caminho dessa tarefa!
O que eu não esperava, no entanto, era encontrar qualquer artigo publicado antes dos anos 60 em periódicos braisleiros. Todavia, ao fazer uma busca ontem no Google Acadêmico, usando empreendedor como termo de busca e restringindo o período de publicação para entre 1900 e 1970, localizei um artigo de 1955 publicado na Revista Brasileira de Economia. O artigo é de autoria de Yale Brozen, que até ontem me era um ilustre desconhecido. Naturalmente, fiz uma googlada e localizei informações sobre o mesmo. Yale Brozen foi professor da Universidade de Chicago e, segundo a Foundation for Economic Education, foi um economista reconhecido como defensor do livre mercado, tendo falecido em 04/03/1998 aos 80 anos. 
Dessa forma, como acontece com frequencia em estudos históricos, a partir de ontem tive que reconhecer que o primeiro artigo sobre empreendedorismo publicado em periódico brasileiro foi intitulado Os determinantes da capacidade do empreendedor. Nele Brozen argumenta sobre o que denomino Condicionantes ambientais do empreendedorismo, um tema de pesquisa em que Bresser Pereira publicou o, até ontem, primeiro artigo em periódico brasileiro na Revista de Administração de Empresas em 1963 (O empresário industrial e a revolução brasileira). 
Assim, a partir desse registro, fica reconhecido o artigo de Brozen como o primeiro a tratar de empreendedorismo em periódico brasileiro, inaugurando um dos 36 temas de pesquisa no campo que categorizei em meu livro. Todavia, Breser Pereira se mantém como o primeiro pensador brasileiro a publicar em periódicos brasileiro artigos sobre empreendedorismo, o que ele fez em 1962, 1963 e 1964. Além disso, Bresser Pereira inaugurou dois temas de pesquisa no campo do empreendedorismo conforme mencionei em meu livro: Empreendedorismo e desenvolvimento, com o artigo Desenvolvimento econômico e o empresário de 1962; e Atributos e tipologias de empreendedores com o artigo Origens étnicas e sociais do empresário paulista de 1964.
Um aspecto interessante do artigo de Brozen é que este, ao desenvolver seu argumento sobre as condições sociais e culturais que condicionam a capacidade do empreendedor, inicia suas ideias com uma tipologia de empreendedores proposta por Clarence Danhof em texto de 1949. Esta tipologia apresenta quatro tipos de empreendedores, que derivam de sua relação com o esforço de inovação tecnológica: inovadores; imitativos; fabianos; e retrógrados. Apesar de ser um texto com 64 anos de idade, podem ser encontradas nele, ideias ainda desposadas por pesquisadores contemporãneos. Por fim, qualquer leitor atento poderá perceber que, mesmo falando em possíveis ações governmanetais entre os determinantes da capacidade do empreendedor, Brozen se mantém fiel aos princípios de um defensor do livre mercado nesse texto inaugural do campo do empreendedorismo no Brasil. Ele chega a reconhcer a possibilidade do governo empreender, mas apenas temporariamente até que surja um ou mais empreendedores que passem a atuar no setor do empreendimento governamental. O texto pode ser acessado na íntegra em http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rbe/article/view/2338/2617.