sábado, 8 de fevereiro de 2014

Nativos e forasteiros: quais são as referências sobre empreendedorismo mais citadas no Google Acadêmico

Hoje resolvi brincar um pouco com as estatísticas do Google Acadêmico. Queria saber quais são os trabalhos sobre empreendedorismo citados com maior freqüência nas línguas portuguesa e inglesa. É claro que esperava uma participação muito pequena de autores brasileiros nas citações. Além de periféricos na academia internacional, nós publicamos muito em português e pouco em inglês. A chance de ter um dos pesquisadores da comunidade que estuda o empreendedorismo no Brasil entre os mais citados globalmente era muito pequena. Mas, eu queria ver se as quantidades de citações em cada língua estavam próximas ou distantes.

Para fazer isso, realizei quatro buscas no google acadêmico. Usei as palavras-chave: Empreendedor, Empreendedorismo, Entrepreneur e Entrepreneurship. Comecei pela literatura em português. As vinte publicações mais citadas estão no quadro abaixo:

Publicação
Autor(es)
Tipo
Ano
Citações
Empreendedorismo
JCA Dornelas
Livro
2008
1101
 Oficina do empreendedor
F Dolabela
Livro
1999
540
O empreendedor: fundamentos da iniciativa empresarial
RJ Degen, AAA Mello
Livro
1989
446
Empreendedorismo: empreendedores e proprietários-gerentes de pequenos negócios
LJ Filion
Artigo
1999
420
Empreendedorismo
RD Hisrich, MP Peters
Livro
2004
375
 Reinventando o governo: como o espírito empreendedor está transformando o setor público
D Osborne, T Gaeble
Livro
1994
314
Empreendedorismo: dando asas ao espírito empreendedor: empreendedorismo e viabilização de novas empresas
I Chiavenato
Livro
2005
265
Empreendedorismo corporativo
JCA Dornelas
Livro
2009
177
Manual de empreendedorismo e gestão: fundamentos, estratégias e dinâmicas
LA Bernardi
Livro
2003
165
O fenômeno do empreendedorismo
E Leite, JJB Gouveia
Livro
2000
162
Dominando os desafios do empreendedor
S Birley, DF Muzyka, CR de Lucinda
Livro
2004
140
Intrapreneuring: por que você não precisa deixar a empresa para tornar-se umempreendedor
G Pinchot
Livro
1989
139
Empreendedorismo: uma visão do processo
RA Baron, SA Shane
Livro
2007
132
 Inovação e empreendedorismo
J Bessant, J Tidd
Livro
2009
130
Oficina do empreendedor: a metodologia de ensino que ajuda a transformar conhecimento em riqueza
F Dolabela
Livro
2008
127
 Empreendedorismo no Brasil
GEM Monitor
Livro
2002
123
Empreendedorismo social: a transição para a sociedade sustentável
FP de Melo Neto
Livro
2002
121
Visão e relações: elementos para um metamodelo empreendedor
LJ Filion
Artigo
1993
121
Pedagogia empreendedora
F Dolabela
Entrevista
2004
116
 Empreendedorismo urbano: entre o discurso e a prática
R Compans
Livro
2004
107

Há dezessete livros nessa relação, dois artigos em periódicos científicos e uma entrevista publicada em um periódicos acadêmico. O campeão de referências na língua portuguesa foi o livro Empreendedorismo do Professor Dornelas. Este tem um segundo livro, também entre os vinte mais citados, mas com apenas 177 citações. Fernando Dolabela vem em segundo lugar com a “Oficina do Empreendedor”. È o único autor a aparecer três vezes na lista. Em terceiro lugar na lista vem um dos primeiros livros sobre empreendedorismo publicados no Brasil de autoria de Ronald Degen e Álvaro Melo.

Em termos de época de publicação, há apenas onze anos separando a referência mais antiga (1998) da mais nova (2009),

A lista tem nativos e estrangeiros. Entre os vinte, há oito trabalhos de autores não brasileiros, ou seja, traduções de obras publicadas lá fora. Os dois artigos do Professor Filion, os livros de Compans, Hisrich e Peters, Osborne e Gaeble, Birley, Muzika e Lucinda, Pinchot, Baron e Shane, e Bessant e Tidd.

O número médio de citações foi de 261, mas com uma dispersão razoavelmente grande (DP = 237).

E os estrangeiros, como é que se saíram. Eu, como disse no começo, esperava uma diferença no número de citações. Mas, essa foi muita maior do que minha expectativa. Eis os números:

Publicação
Autor
Tipo
Ano
Citações
 Innovation and entrepreneurship
PF Drucker
Livro
1999
6349
The promise of entrepreneurship as a field of research
S Shane, S Venkataraman
Artigo
2000
5849
 Competition and entrepreneurship
IM Kirzner
Livro
1978
5263
 New venture creation: Entrepreneurship for the 21st century
JA Timmons, S Spinelli
Livro
1994
3068
Entrepreneurship: Productive, unproductive, and destructive
WJ Baumol
Artigo
1996
2985
Finance, entrepreneurship and growth
RG King, R Levine
Artigo
1993
2674
The correlates of entrepreneurship in three types of firms
D Miller
Artigo
1983
2462
 The entrepreneur: An economic theory
M Casson
Livro
1982
2441
Some empirical aspects of entrepreneurship
DS Evans, LS Leighton 
Capítulo
2002
2118
" Who is an entrepreneur?" Is a question worth asking
H Carland, JW Carland, F Hoy
Capítulo
2002
2927
Entrepreneurship through social networks
H Aldrich, C Zimmer
Artigo
1986
2054
A general theory of entrepreneurship: The individual-opportunity nexus
SA Shane
Livro
2003
2035
A conceptual model of entrepreneurship as firm behavior
JG Covin, DP Slevin
Livro
1991
1999
A paradigm of entrepreneurship: entrepreneurial management
HH Stevenson, JC Jarillo 
Artigo
1990
1955
What makes an entrepreneur? Evidence on inheritance and capital constraints
D Blanchflower, AJ Oswald
Livro
1990
1934
 The distinctive domain of entrepreneurship research
S Venkataraman
Artigo
2002
1846
 Perception, opportunity, and profit: Studies in the theory of entrepreneurship
IM Kirzner
Livro
1979
1824
Entrepreneurship: Past research and future challenges
MB Low, IC MacMillan
Artigo
1988
1658
The psychology of the entrepreneur
RH Brockhaus, PS Horwitz
Capítulo
1996
1592
The social dimensions of entrepreneurship
A Shapero, L Sokol
Capítulo
1982
1521

Começando pela média de citações: 2.728! Mais de dez vezes a média das publicações em língua portuguesa. A dispersão é também razoável (DP = 1.418).

A natureza das publicações tem uma distribuição muito diferente das obras referenciadas em português. O conjunto é composto por oito livros, oito artigos em periódicos científicos e quatro capítulos de livros.

O grande campeão é um autor que anda meio posto de lado pela academia da administração no Brasil: Peter Drucker com seu livro Innovation and Entrepreneurship, que inclusive já tem tradução para o português.

A dispersão temporal também é maior, mais de duas décadas. O mais antigo é de 1978 e o mais recente é de 2003. Isto parece indicar uma permanência de alguns textos que começam a se tornar clássicos.

Por fim, salvo engano meu, a lista não tem nenhum nativo brasileiro. São todos estrangeiros.

Minha curiosidade resolvida, compartilho com você a informação. Se você é um novato na academia brasileira, não desanime, os números apenas demonstram a situação de quem vive na periferia. Escrever em inglês pode ajudar, mas não é só a língua que conta... Se você se esforçar pode se tornar uma referência entre os nativos. Não deixe de tentar!

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

UM PEQUENO TRAILER: Configuração no Empreendedorismo - uma trajetória de 14 anos

No dia 10 de fevereiro próximo estarei na Universidade Estadual de Maringá para participar da aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em Administração, marcando o começo do Doutorado. Usando uma metáfora cinematográfica, a estrela principal será o Professor Dr. Alexandre de Pádua Carrieri da Universidade Federal de Minas Gerais que abordará três temas que, tenho certeza, serão muito estimulantes para aqueles que estudam a Administração: “Administração – uma breve conversa sobre o campo”, “Os Estudos Organizacionais: uma breve narrativa” e “Gestão ordinária no cotidiano”. Eu terei um papel coadjuvante no qual tentarei comentar sobre a minha caminhada pessoal nos estudos da Administração, principalmente nos últimos 14 anos, período em que tenho buscado um entendimento das configurações organizacionais no empreendedorismo e na estratégia de pequenas empresas.
Minha carreira nos estudos da Administração se iniciou em meados de 1977, aos vinte anos, quando comecei a graduação em Administração na Universidade Estadual de Londrina. Ao concluir curso, em 1981, fui convidado para lecionar como auxiliar de ensino no Departamento de Administração da UEL. Oito dias depois de formado, enfrentava minha primeira turma de graduação! Graças ao apoio de alguns amigos que trabalhavam naquele departamento, em especial, o Sérgio Bulgacov, logo após seis meses, consegui ir fazer o mestrado em Administração na Faculdade de Economia e Administração da USP. Uma formação predominantemente positivista, reforçando a forma de enxergar a Administração que me haviam transmitido na graduação na UEl, era o que me esperava!
Com a orientação do Adalberto Fischmann, que me deu muita liberdade e diretrizes quando mais precisava, fiz meu primeiro estudo sobre estratégia em pequenas empresas. Na dissertação procurei entender o que chamei à época, inspirado em Ansoff, o comportamento estratégico de dirigentes de pequenas empresas moveleiras de Londrina. Anos depois, 1990, tenho o privilégio de ir para a Inglaterra onde sou aceito para o doutoramento na Manchester Business School. Mais um orientador que me deu muita liberdade: Tudor Rickards. Com seu apoio estudei a cognição de dirigentes de pequenas empresas e tentei associar seus modelos mentais a escolhas estratégicas, baseado no modelo de Miles e Snow. Foi quando começou minha aproximação, ainda inconsciente, da abordagem das configurações. Nesse período tive contato com um texto do Mintzberg de 1990 em que ele fazia as primeiras considerações sobre as escolas de formação de estratégia. Mais tarde, surgiria o agora famoso “Safari de Estratégia”. Uma leitura importante, entre muitas, mas que sempre registro foi o livro de Richard Whittignton: “What is strategy ? And does it matter?”. Os dois textos foram fundamentais na consolidação de minha visão sobre o campo da estratégia organizacional.
No retorno a Londrina, encontro na UEL dois estudantes de graduação interessados em Iniciação Científica: Paulo Hayashi Jr. e Eugênio Guilherme Soares Krüger. Junto com minha amiga Cleufe Pelisson, também professora do Departamento de Administração da UEL, temos a oportunidade de replicar parte de meu projeto de doutorado. Os resultados desse trabalho são apresentados em 1998 no ENANPAD, quando ganhamos o prêmio de melhor trabalho da área de Estratégia em Organizações. Depois, em 1999, o artigo foi publicado na RAC e segundo o Google Acadêmico é minha publicação mais citada, “Estratégia em pequenas empresas: uma aplicação do modelo de Miles e Snow”.
Em 1998, já morando em Maringá, devido à minha transferência para a UEM, fui acolhido com muita generosidade por todos os professores à época . Em 2000, me deram o privilégio de ser o primeiro coordenador do Mestrado em Administração UEM/UEL. Foi nesse ano, também, que apresentei um seminário sobre uma possível visão das configurações no empreendedorismo. O seminário fazia parte das atividades do grupo de pesquisa em Estudos Organizacionais, com a participação de Paulo Grave, Mabel, Hélio, Décio, Ariston e outros amigos e amigas que a memória me impede de lembrar.
Mas, um pouco antes disso, minha consciência de que estava me tornando um configuracionista se manifestava. Tive o prazer e, mais uma vez, um privilégio de contar com um orientando de iniciação científica, que se tornou um brilhante pesquisador da Administração, Fábio Vizeu. Aliás, essa trajetória do Fábio é mérito dele mesmo. A mim, quis o acaso, que estivesse presente na UEM quando ele fez sua graduação e pode me ajudar em meus estudos. Fábio, sob minha orientação, estudou a obra de Mintzberg e, no último ano da IC, desenvolveu um instrumento para verificação do modelo de configurações organizacionais de Mintzberg. Esse esforço resultou em uma publicação na Revista Alcance em coautoria comigo e Paulo Grave.
Foi a partir do começo do século 21, portanto, que decidi sobre aprofundar minhas investigações em configurações. Isso foi feito em duas frentes: empreendedorismo e estratégia de pequenas empresas. Ao longo dos anos, as ideias iniciais apresentadas no seminário em 2000, foram sendo melhor estruturadas, ampliadas, aperfeiçoadas. Nessa trajetória houve o apoio de muitos mestrandos e alguns doutorandos. Nesse momento, busco em meu Lattes, os nomes para que a memória não me traia: Edmundo Inácio Júnior, Kátia Tóffolo, Charles Vezozzo, Luis Marcelo Martins, Karla Regina Brunaldi, Simone Cristina Ramos, Jane Mendes Ferreira, Ércio de Paula dos Santos, Roberto Bohlen Selem, Beatris Kemper Fernandes, Alexandre Szpyro Pereira Cardoso, Jonas Baptista Marquesini, Jorge Uberson Pereira, José Geraldo Castaldi, Ulisses de Souza Morais, Fábio Mello Fagundes, Valdete Noveli Rhoden, Sara Regina Hokai, Elaine Aparecida Vidal de Anhaia, Daniela Torres da Rocha, Fabíula Bitencourt Rocha, Nobuiuki Costa Ito, Carlos Otávio Senff, Marco Antonio Murara, Glauco Vinicius de França Fürstenberg, Denize Patrícia Moraes, Felipe Leal Alves, Ferreira, Elza Hofer, Eloi Junior Damke, José Pedro Penteado Pedroso e Cristiano Molinaria Bispo.
Foram trinta um amigos e amigas que surgiram na minha caminhada desde 2000. Aos estudos que eles me propiciaram conhecer deve-se muito da minha evolução no entendimento das configurações organizacionais. Talvez o melhor resumo dessa trajetória possa ser visto em dois posts que publiquei nesse mesmo blog: “Os 5 Ps do Empreendedorismo” e “Esponja inteligente: forças que configuram organizações eficazes”.
Bem, isso era pra ser só um trailer. Há muita mais o que ser dito. Mal posso esperar o (re)encontro no dia 10!

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Financiamento Coletivo no Brasil

Resultados muito valiosos de pesquisa feita sobre o financiamento coletivo no Brasil. Tive a experiência no ano passado de fazer um projeto no CATARSE, bem sucedido, para financiar a edição de meu livro.

Eis o link: http://pesquisa.catarse.me/

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

SUSTENTABILIDADE: REFLEXÕES SOBRE TEXTOS CHINESES E TRABALHO INTERNO, O FILME


Dois anos atrás, ganhei um livro de Telma, mas não puder dedicar-me à sua leitura então. Com o passar do tempo, ele se perdeu no meio de minhas bagunças e o reencontrei há cerca de três meses quando fui arrumar minha biblioteca, após a reforma em nosso apartamento.

Selected Writings of Li Shenzhi é uma publicação da Kettering Foundation Press, editado por Ilse Tebbetts e Libby Kingseed em 2010. Na semana passada, arrumando minhas coisas para viagem a Maringá e Londrina, em função das festividades natalinas, decidi colocá-lo na bagagem. Comecei a leitura em Maringá, continuei em Londrina e vim concluí-la hoje em Curitiba.

Li Shenzhi, chinês que viveu entre 1923 e 2003, foi um acadêmico e membro do governo chinês que dedicou muito esforço na defesa da reforma política e democracia na China. Segundo os organizadores do livro, ele foi um dos principais estrategistas e conselheiros de relações exteriores na China, tendo exercido papel importante na promoção de atitudes moderadas da China e da política de Portas Abertas para o Ocidente. Ao tempo de Mao, foi conselheiro de relações exteriores para o Premier Zhou Enlai no começo da década de 50. Mais tarde, acabou sendo posto de lado, acusado de direitista, no período da Revolução Cultural dos anos 60. No final dos anos 70, foi procurado por Deng Xiaoping em busca de conselho sobre política de relações externas, em especial com os Estados Unidos. Acompanhou a visita de Deng aos Estados Unidos em 1979 e a do Premier Zhao Ziyang em 1984.

O livro contém doze textos anteriormente publicados em chinês entre 1993 e 2002, além de uma entrevista originalmente publicada em Contemporary Chinese Thought (v. 33, n. 2, 2001). Raramente, tive a oportunidade de ler sobre a história desse país tão distante. Em muitos dos textos, Li Shenzhi comenta sobre sua visão de uma possível democracia na China, a partir de uma tradição liberal. Ao fazer isso, em seus textos nos ensina sobre a história chinesa de mais de 2.300 anos passados. Para ele, a principal dificuldade dessa evolução residia no Autoritarianismo (authoritarianism), uma tradição cultural que vem desde o período de Qin Xiao Gong que era o soberano do Estado de Qin de 361 a 338 AC, que unificou o país durante o período da Guerra dos Estados. Para Lin Shenzhi, o Autoritarianismo sustentou-se em duas escolas de pensamento: Confucionismo e Legalismo.

Confúcio enfatizava uma filosofia humanista que ressaltava a importância da ética e educação para melhorar a sociedade humana, ao passo que o Legalismo, que surgiu do Confucionismo, defendia que o ser humano é essencialmente ganancioso e egoísta, devendo ser controlado por leis e o poder do Estado. Dessa forma, o autoritarianismo tem sobrevivido à longa história chinesa, devido à prevalência de três diretrizes que datam do primeiro século: o governante guia seus ministros; o pai guia seus filhos; e o marido guia sua esposa. Mais de 2.000 anos transformaram essas ideias em uma ideologia que, segundo Shenzhi, penetrou profundamente no modo de vida do povo chinês.

Pelos seus textos, percebe-se que Li Shenzhi devotava certa admiração pelo sistema de vida do povo dos Estados Unidos. Ele foi um dos defensores da virada na política externa chinesa de afastamento da União Soviética e aproximação com os Estados Unidos. Foi, também, o organizador do Instituto de Estudos Americanos na Academia Chinesa de Ciências Sociais e fundador da Associação Chinesa de Estudos Americanos em 1988.

Entre as muitas coisas interessantes que descobri sobre a China, uma me deixou muito satisfeito. Lembro-me que nos anos 70, costumava-se falar sobre os países do terceiro mundo e do primeiro mundo. Nunca soube sobre a origem dessa classificação, mas a distinção para mim era muito clara. O primeiro mundo era representado pelos Estados Unidos, imperialista, e outros países europeus muito ricos; terceiro mundo eram os países da África, Ásia e América Latina. No texto em que comenta sobre a diplomacia da República Popular da China, Li Shenzhi informa que Mao foi quem criou estas categorias, que depois foi popularizada pela publicação de um artigo em todos os jornais da nação no dia primeiro de novembro de 1978. Nas palavras de Li Shenzhi, o campo capitalista com os Estados Unidos à frente como o primeiro mundo, o campo socialista liderado pela União Soviética como o segundo mundo, e todos os outros que não pertenciam a nenhum dos campos como o terceiro mundo (p. 146).

Mas, Shenzhi, conta que, de forma inesperada, em uma reunião com o Presidente Kaunda da Zâmbia, em 22 de fevereiro de 1974, Mao apresentou uma ideia diferente para as categorias. Conforme Shenzhi, nas palavras de Mao:

_ Na minha opinião, os Estados Unidos e a União Soviética pertencem ao primeiro mundo. Aqueles no meio incluem Europa, Japão, Austrália, Canadá e outros, que não têm tantas bombas nucleares e não são tão ricos, mas ainda assim mais ricos que o terceiro mundo. O terceiro mundo tem uma população muito grande. Toda a Ásia, exceto o Japão, pertence ao terceiro mundo. Toda a África e toda a América Latina pertencem ao terceiro mundo (p. 146).

É uma sensação tão agradável encontrar a origem de ideias que estavam em meu discurso no passado, mas que não sabia de onde tinham vindo!

Os textos de Li Shenzhi trouxeram muita informação nova para mim. Outra que me deixou intrigado foi o movimento de revolta de dezoito camponeses que imprimiram suas mãos tingidas de sangue para registrar um acordo que fizeram sobre a divisão de uma parte de terra com o objetivo de iniciar pequenas fazendas individuais. Segundo Shenzhi, foi este acontecimento que levou à reforma e à abertura do regime comunista chinês. Muito consistente com suas ideias, o movimento obteve grandes resultados porque deu ao povo chinês alguma liberdade. Não pude deixar de pensar em como isto poderia ser explicado por uma teoria do empreendedorismo!

Mas, Li Shenzhi morreu em 2003. Não teve tempo de testemunhar a grande crise econômica ocorrida após os eventos de falência de grandes empresas financeiras em 2008, que estavam sediadas nos Estados Unidos que tanto admirava. O que teria pensado? Com certeza seria mais um estudioso a nos ajudar a entender o comportamento capitalista ganancioso e egoísta. Será que a escola de pensamento Legalista, derivada do Confucionismo, poderia reforçar a luta por uma regulação mundial dessas atividades?

Fiquei refletindo sobre essas questões, após rever Trabalho Interno, documentário escrito e dirigido por Charles Ferguson. Lançado em 2010, o filme relata a história da crise econômica de 2008 que custou ao mundo mais de US$ 20 trilhões de dólares, com muito sofrimento causado por perdas de empregos, casas e recursos de milhões de pessoas.

A partir de entrevistas com profissionais da área financeira, políticos, professores universitários, e baseado em muita pesquisa, Charles Ferguson apresentou-nos um retrato realista e, ao mesmo tempo, revoltante da ganância e cinismo presente nos representantes de Wall Street, ou melhor, como um dos seus entrevistados disse, os representantes do governo de Wall Street, já que desde antes de Bill Clinton, os responsáveis pela área econômico-financeira  do governo dos Estados Unidos têm saído e se revezado na ocupação de cargos a partir de sua atuação em Wall Street.

Juntando tudo isso, continuo nessa minha jornada particular em busca do entendimento da evolução da humanidade. Sem perder a esperança, mantenho o desejo de que as frases complementares de Confúcio e Jesus, que aprendi com Li Shenzhi, possam ser ouvidas mais fortemente e ajudar a construir um mundo sustentável:

Não faça a outros o que não deseja que seja feito a você (Confúcio).

Tudo o que quereis que lhe façam, faça-o também aos outros (Cristo).


Talvez fosse essa a ideia de Shenzhi ao escrever em 1995: Nós chegamos a um ponto em que devemos assumir responsabilidade em formular um padrão de valor global efetivo. Esta é a era que chama por pensadores, estadistas, líderes religiosos e educadores (p. 126).