segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Eu sou palavroso? Dificuldades de um escritor para públicos distintos!

Sou professor de administração há mais de 30 anos, para ser mais exato, em agosto desse ano completei 33 anos de atuação no ensino e pesquisa em Administração. Entre 1977 e 1981, enquanto fazia minha graduação em Administração na Universidade Estadual de Londrina, publiquei algumas crônicas e pequenos textos em uma seção da Folha de Londrina que era editada pela jornalista Ana Aromatário. A seção tinha o título de “Qual é a deles?” e destinava-se à publicação de textos de leitores do jornal. Não era uma seção de cartas do leitor! Mas, uma seção em que muitos leitores escreviam sobre temas que lhes interessavam. Publiquei algumas vezes nessa seção. Eram textos não acadêmicos, mas em alguns deles tratei de questões relacionadas á Administração. Muitas vezes recebi comentários elogiosos sobre o que escrevi naquela época.
Depois de concluir meu mestrado na Faculdade de Economia e Administração comecei minha carreira de escritor acadêmico. Meu primeiro texto científico foi publicado na revista Temática – Estudos de Administração, em 1984, quando escrevi sobre a relação entre ecologia de empresas e fomento econômico. A Temática foi uma publicação do Departamento de Administração da UEL que deixou de existir. Dois anos depois, publiquei um artigo na Revista de Administração da USP, no qual relatei estudo feito sobre atividades de apoio à pequena empresa no Reino Unido. Desde essa época, peguei gosto pela pesquisa e publicação acadêmicas. Nesses trinta anos, foram mais de cinquenta artigos de cunho acadêmico/científico! Uma boa produção que tem sido referenciada por outros estudiosos. Isto me deixa muito feliz!
Mais recentemente, por meio desse blog, voltei à escrita menos acadêmica ou menos científica. Aqui tenho registrado minhas reações e comentários a temas que estudo na Administração, mas tenho evitado ser muito rigoroso em termos científicos. Esse é o espaço para minhas emoções se juntarem ao uso da razão. Alguns dos textos que aqui publiquei têm me causado muito mais prazer do que trabalhos acadêmicos que são muito importantes em minha carreira de pesquisador. É outra forma de expressão!
Mas, às vezes, tento misturar os estilos em uma mesma publicação. No ano passado, por exemplo, graças à compreensão de seus editores, publiquei um texto na edição inaugural da Organizações e Sustentabilidade (http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/ros/article/view/15798) no qual teci reflexões sobre sustentabilidade e responsabilidade social corporativa a partir do cinema. Escrever o parágrafo inicial desse texto foi um momento quase mágico para mim. Sem nenhuma falsa modéstia, sugiro que você dê uma olhada nesse texto.
A regra geral que tenho seguido, no entanto, é tentar adequar o estilo à publicação, ou seja, ao seu público. Foi o que pensei estar fazendo quando, dois meses atrás, ajudei Sara a descrever um estudo de caso sobre capital social e empreendedorismo em um texto que submetemos a uma conferência sobre empreendedorismo que acontecerá na Espanha no próximo mês. Meu julgamento foi que estávamos preparando um texto para uma reunião acadêmica ou científica. Seguimos o script da produção de um texto acadêmico. Introdução, desenvolvimento e conclusão bem articuladas por uma boa base teórica e descrição cuidadosa dos procedimentos do estudo. Na conclusão reforçamos o que o caso nos ensinou sobre essa relação. Mas, parece que me enganei. Como descobri isso?
Ontem recebi o resultado da avaliação do trabalho. Ele foi aceito para apresentação no evento. Infelizmente, como o anúncio da aprovação veio um pouco tarde, Sara e eu não poderemos participar da conferência. Eu ia tentar levantar recursos para custear minhas despesas de viagem. A parte de Sara seria coberta por nós. Mas, não há mais tempo para isso junto aos órgãos de fomento brasileiros. Assim, tivemos que desistir da participação e da publicação do trabalho.
A essa altura você deve estar se indagando:
_ Se o trabalho foi aceito, onde está o engano?
Pois é meu caro leitor ou minha cara leitora, apesar de bem sucedido, descobri que a linguagem não estava adequada ao público pelo comentário que o(a) avaliador (a) fez sobre o nosso texto. Eis o comentário:
Bem, julgo que o artigo é de aceitar. Porém, parece-me, em geral demasiado palavroso. Apesar, disso, acho que a maior parte do conteúdo é, já, aceitável.
A única secção que, creio eu, deve ter uma modificação é dedicada à revisão bibliográfica. Parece-me claramente demasiado extensa. A meu ver, deve ser reduzida ao mínimo indispensável - conter apenas o que esteja diretamente ligado ao estudo de caso em causa.
O que é dito nas restantes seções poderia ser dito em menos palavras e de uma forma mais clara. Porém, do meu ponto de vista, tem já qualidade suficiente.
Ora veja você! Parece que Sara e eu não precisávamos ter dedicado tanto esforço a demonstrar a relação do caso estudado com a literatura e tampouco discutir o que o caso trouxe de novo para o entendimento da relação entre capital social e empreendedorismo. Parece-me que era esperada apenas a descrição de um caso prático bem sucedido. Erramos no estilo, mas acertamos no alvo: o trabalho foi aprovado!
Só fiquei um pouco chateado de ter sido adjetivado como palavroso! Sabe o que isso quer dizer no português brasileiro? Prolixo! Eu podia ter ido dormir sem essa ontem à noite!
Ah! Outra coisa:
_ Espero não ter sido palavroso nesse post!

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Capital social ou conexões: juntanto reflexões acadêmicas com empreendedoras

Minha atenção de pesquisador na área do empreendedorismo foi atraída por um tema que já foi objeto de estudo de muitos aqui no Brasil e no exterior: o capital social empreendedor. Minha primeira aproximação a esse tema deu-se quando Sara e eu realizamos um pequeno estudo sobre a criação de uma empresa de cicloturismo em Curitiba - a KuritBike Cicloturismo Urbano (http://novo.kuritbike.com/). A partir de uma entrevista com o criador da KuritBike, procuramos identificar como esse empreendedor usou sua rede de contatos para obter acesso a recursos necessários para a criação e manutenção de sua empresa no mercado. De forma muito resumida, o capital social empreendedor diz respeito aos contatos que um empreendedor ou uma empreendedora utiliza no sentido de obter acesso a recursos (financeiros, informacionais, materiais, de conhecimento, etc) que facilitem o surgimento da empresa em primeiro lugar e, depois, sua permanência bem sucedida no espaço competitivo que é o mercado.

Há uma literatura grande sobre esse tema, mas hoje quero falar de um texto que meu amigo Cândido Borges escreveu em co-autoria com o professor Louis Jacques Filion e que foi publicado no número 1 do primeiro volume da Revista de Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas - REGEPE (http://www.regepe.org.br/index.php/regepe/article/view/12). No artigo Evolução do capital social empreendedor dos spin-offs universitários, Cândido e Filion descrevem o resultado de uma pesquisa com oito empresas que tiveram sua origem ligada a alguma instituição de ensino superior, mostrando como o capital social de seus empreendedores foi se tornando cada vez mais diversificado e numeroso conforme as empresas progrediam nas etapas de sua criação. Nesse texto, os dois pesquisadores adotam um modelo que divide a criação de uma empresa em quatro estágios distintos: iniciação, preparação, lançamento e consolidação. 

O trabalho de Cândido e Filion é uma excelente introdução ao tema do capital social empreendedor. Recomendo sua leitura a quem quer começar uma jornada de estudos nesse campo do conhecimento. Além disso, o artigo tem uma escrita de excelente qualidade, tanto do ponto de vista científico quanto do ponto de vista de capacidade de comunicar claramente seus resultados!

Nessa minha vida que junta atividades de professor, pesquisador e gestor, em paralelo aos meus estudos, continuo minhas funções como Coordenador de Empreendedorismo e Incubação de Empresas da Agência de Inovação UFPR. No momento, tenho dedicado muito esforço na condução do curso de extensão Bota pra Fazer, em parceria com o Instituto Endeavor Brasil, destinado à capacitação de estudantes da Universidade Federal do Paraná, cujo objetivo é fazer com que os participantes sejam capazes de se reconhecer como potenciais empreendedores e auxiliá-los no desenvolvimento de sua capacidade empreendedora, na identificação de oportunidades para empreender e na elaboração de um plano de negócio que leve, eventualmente, à criação de uma nova empresa.

Assim, estou revendo o conteúdo desse curso, um pouco a cada dia, visando me preparar para poder conversar com os alunos sobre seu conteúdo e esclarecer eventuais dúvida. Hoje, tive a oportunidade de assistir um vídeo com o depoimento do Marcelo Sales, que faz parte do conteúdo do curso, cujo título é As conexões que movem a vida. Esse vídeo está disponível no seguinte site: https://www.youtube.com/watch?v=JR7Omeoatek.

Marcelo Sales, mais que empreendedor bem sucedido, é um comunicador nato e faz um depoimento cheio de graça e simpatia, além, é claro, de compartilhar muito conhecimento útil para potenciais empreendedores. Foi muito legal poder aprender com ele sobre como sua rede de contatos (conexões) foi importante na construção de seu sucesso empreendedor ao longo de vários momento de sua vida.

A ligação entre o artigo de Cândido e Filion com o depoimento de Marcelo Sales surge fortemente nos trechos em que Marcelo Sales conta sobre as conexões que buscou no mundo dos negócios quando queria tornar efetivas as ideias empreendedoras que tinha junto com seus sócios. Muito legal poder ver como a experiência desse empreendedor é mais um exemplo de que a conclusão do estudo de Cândido e Filion faz todo o sentido, ou seja, para esses autores, o capital social empreendedor passa de uma rede majoritariamente tecnológica a uma rede mais diversificada, que inclui todas as categorias de rede (de suporte, de financiamento e outras) e uma composição contando proporcionalmente com cada vez mais contatos de negócio. 

Leiam o texto e vejam o vídeo ou vejam o vídeo e leiam o texto. Se aprende muito com ambos!

P.S.: O estudo que Sara e eu realizamos será submetido a algum periódico e espero que um dia esteja disponível para leitura.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Carta a uma jovem mestranda

Curitiba, 8 de junho de 2014.

Minha cara,

Já faz algum tempo que vinha planejando lhe escrever. Mas, escrever cartas é uma prática tão rara hoje em dia que fiquei pensando se realmente essa seria a melhor forma de me comunicar com você. Tinha dúvidas. Muitas!

Além disso, pensava também se ainda saberia escrever uma carta. Não consigo me lembrar de quando foi a última vez que escrevi uma. Teria sido a última para meu amigo Zé? Acho que não. Zé e eu nos correspondemos por alguns anos durante nossa juventude. Ambos nascemos em maio de 1957 e nos conhecemos aos 18 anos em São José dos Campos. Depois de um ano e meio de estudos de engenharia, quase que ao mesmo tempo, decidimos nos desligarmos da escola. Não era aquilo que queríamos da vida! Cada um retornou para sua cidade de origem. Ele, São Vicente, eu, Londrina. Escrevíamos semanalmente compartilhando nossos sonhos e esperanças juvenis. Um pouco mais novos que você é hoje, mas apesar das décadas que separam nossas juventudes, creio que tinhamos esperanças iguais às suas.

As cartas para/do Zé foram rareando. Nos reencontramos em São Paulo quando fui fazer meu mestrado. Depois, quando voltei para o Brasil, após quatro anos e meio na Inglaterra, descobri que Zé havia morrido. Me deu uma tristeza imensa. Antes do Zé, na adolescência escrevi muitas cartas. Houve uma menina que morava em Belém do Pará. Poxa! Não consigo lembrar o nome dela! Nunca nos encontramos, mas escrevemos muitas cartas. Houve a Ivvy de Assis, uma espécie de amor platônico, um pouco antes de eu me mudar para São José dos Campos. Nos encontramos em Londrina, mas não rolou nada.

Mas, não é sobre minhas cartas que quero lhe falar. Engraçado, não perco esse vício. Em cartas, sempre usei o verbo falar ao invés de escrever. É claro que estou escrevendo, mas é como estivesse lhe falando. Então tenho que falar e não escrever! Entendeu?

É que ontem me lembrei de você. E me lembrei de você, porque me lembrei de mim mesmo quando fui fazer mestrado. Eram outros tempos! Nossa que frase mais grotesca! É claro que eram outros tempos, mas o que eu quero dizer é que a gente não se preocupava em publicar um artigo para cada disciplina que concluísse. Não! Na verdade, eu só publiquei um artigo que surgiu de minha dissertação. Não publiquei mais nada durante o mestrado todo. E o que é pior, meu orientador não apareceu como co-autor! Afinal de contas, quem escreveu o artigo foi eu. Ou será melhor dizer, quem escreveu o artigo fui eu? Essa nossa língua, às vezes, é meio ardilosa, não?

Olha eu, de novo, fugindo daquilo que quero lhe contar! Vou direto ao ponto.

Ando meio incomodado com essa coisa de que qualquer trabalho acadêmico no mestrado tem que mirar uma publicação! Na verdade não é meio, estou inteiramente incomodado com isso! Esse negócio de publicar virou tão massacrante que agora faz parte até dos regimentos de muitos programas de pós-graduação. Para o mestrando receber o diploma é preciso comprovar a submissão de pelo menos um artigo para um periódico com Qualis. Nossa, eu estou pegando uma ojeriza dessa palavrinha! Qualis, arre!

Tenho a sensação de que transformaram o prazer de aprender em um ofício de publicar. Porra! Me desculpe a indelicadeza. Agora já foi! Não tem como retirar, sem borrar a carta!

Isso não é bom. Não seria muito melhor se você pudesse passar pelo mestrado, aproveitando todos os momentos para construir um conhecimento que lhe fosse interessante? Que você pudesse se esforçar em tentar compreender o seu tema de estudo de forma abrangente? Que a escrita de um artigo surgisse quando você sentisse uma vontade irresístivel de compartilhar com outros uma descoberta que você fez?

Mas, não! Você tem que passar uma boa parte de seu tempo escrevendo artigos, submetendo-os para congressos ou revistas! Muitas vezes, imagino eu, sem muita vontade, mas, fazer o que né? Tem que cumprir as regras!

Durante algum tempo eu também entrei nessa onda. Por isso, estou lhe escrevendo hoje. Eu deveria ter tido outra atitude, mas talvez você saiba como são essas coisas. A gente entra em uma roda-vida, fica sendo parte dessas engrenagens, recebe pressão de um lado, de outro, e quando menos espera, está fazendo parte de uma rotina idiota!

Puxa, me desculpe! Eu não queria que sua caminhada pelo mestrado fosse assim!

Se eu tivesse parado um pouquinho, olhado para trás, teria me visto, mais ou menos com sua idade, tentando conhecer um pouco mais sobre Administração, sem nenhuma pressa em publicar, deixando as ideias amadurecerem, para de repente, se manifestarem em algo que fez sentido para mim.

Pois é, são outros tempos, você pode me dizer! É verdade, mas tente não sucumbir demasiadamente a essa pressão. Faça o mínimo que lhe exigerem e tente concentrar seu esforço em aprender algo que seja significativo para você. Vai valer a pena! Tenho certeza! Pois, quando você menos esperar, vai surgir um texto que vai lhe revelar para o mundo. Os outros textos são conversa para boi dormir! Ou só para inglês ver! Cumprir uma formalidade que puseram no regimento!

Minha cara, acho que você não é capaz de imaginar como lhe falar me fez bem. Estava precisando tirar isso de meu coração!

Mas, enfim, o que eu quero mesmo é que você possa ser feliz como eu fui nos meus estudos. Aproveite esse tempo para descobrir o máximo que puder sobre aquilo que lhe interessa, que lhe deixa curiosa, que lhe atrai a atenção. No final das contas, é isso que importa.

Um afetuoso abraço de seu professor.


domingo, 11 de maio de 2014

A ILUSÃO DO EMPREENDEDORISMO

Há anos, o empreendedorismo está na moda! Ao digitar essa palavra em um mecanismo de busca na Internet, em 0,32 segundos, me foram fornecidos mais de quatro milhões de resultados. O que é ser empreendedor, em mais nove centésimos de segundo, 0,41s, fornece 4,83 milhões de resultados. Quase um milhão desses resultados, pouco mais de 20%, são vídeos. Não é preciso muito esforço para encontrar alguma coisa escrita ou falada sobre empreendedorismo no mundo virtual.

Dias atrás, fui procurado por um jovem que buscava orientação sobre como incubar uma nova empresa. Recém-formado em engenharia, teve uma ideia de um produto que, aparentemente, não existe no mercado. Pensava em se dedicar a esta iniciativa imediatamente, buscando um espaço onde pudesse desenvolver esse novo produto.

Durante nossa conversa, percebi que ele não tinha muita clareza sobre como seu produto seria. Imaginava que seria um produto útil para empresas, mas que também poderia servir a pessoas. O produto, segundo ele, questionado por mim, não envolvia nenhum conhecimento novo em sua área de formação. Era simplesmente a aplicação de algumas fórmulas de domínio público. Era um produto que poderia aferir a qualidade de um insumo básico para muitas de nossas atividades.

Mas, quem estaria disposto a comprá-lo efetivamente? Como ele seria utilizado? Quanto custaria para ser produzido? Por que ninguém havia feito tal produto ainda, já que era tão simples? Conforme eu fazia perguntas a esse jovem, percebia nele uma frustração crescente, uma certa ansiedade, um ar de perplexidade!

Aos poucos, ele foi percebendo que empreender não era algo simples. Sugeri que procurasse um ou mais de seus ex-professores e conversasse com eles sobre o assunto. Ele manifestou a preocupação com o segredo da ideia, alguém poderia fazer seu produto antes dele! Lembrei, novamente, de uma das minhas perguntas: há algum segredo ou conhecimento de difícil acesso? Não, foi a resposta dele.

Procurei mostrar a ele, que ainda não estava no momento dele incubar uma empresa. Ele tinha que buscar muito mais informação do que sabia até aquele momento. A incubação demandaria compromisso de recursos financeiros que seria custoso para ele arcar. Procurei saber de seus antecedentes: o pai é bancário, a mãe toma conta da casa, ele estava buscando uma alternativa para sua vida, algo diferente de ficar se preparando para concurso. Muitos de seus colegas de curso estão fazendo o mesmo: se preparando para concurso!

Tenho quase que 100% de certeza de que este jovem saiu decepcionado de nossa conversa. Meu sentimento foi de irritação com a forma irresponsável com que a opção de empreender é transmitida aos nossos jovens hoje: a ilusão do empreendedorismo!

Torne-se um empreendedor! É o estímulo que estamos dando a nossos jovens. Vejam quantas histórias de sucesso! Você também pode ser um!

Onde estamos errando? Essa é a pergunta que me surgiu após esse encontro com esse jovem. Nossa sociedade, pelos diferentes meios de comunicação, está levando uma quantidade imensa de jovens a acreditar que serão empreendedores, proprietários de seu próprio negócio. Mas, ao mesmo tempo, não estamos sendo capazes de criar as condições para que eles possam ser bem sucedidos como empreendedores. Uma ideia na cabeça, sem uma câmara na mão, não faz um filme! Uma ideia na cabeça, sem recursos, não faz uma empresa.

Vai chegar o dia em que, com um nível adequado de educação, a partir de acesso igualitário aos recursos necessários, nossos jovens poderão usar seus próprios méritos para ter um diferencial em seus desempenhos?

Queria tanto acreditar que, mesmo em um futuro distante, pudéssemos ter uma resposta positiva a essa pergunta. Mas, em nossa sociedade egocêntrica, acho pouco provável que isso venha a ocorrer. O mais provável é que o acesso a recursos que viabilizem sonhos empreendedores continue ainda escasso. Enquanto isso, vamos disseminando esse discurso ilusório, festejando as raras exceções, escondendo os muito fracassos debaixo do tapete.

E, mais desanimador ainda, celebrando o crescente número de micro empreendedores individuais que são apenas registros virtuais de nossa ilusão empreendedora.

domingo, 30 de março de 2014

QUASE DOIS ANOS DE REGEPE: UM PEQUENO BALANÇO

Há pouco mais de três anos, em fevereiro de 2011, foi criada a Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas – ANEGEPE. Este era um sonho antigo compartilhado com alguns amigos ao longo de quase uma década! Em novembro de 2001, por ocasião do encerramento do II EGEPE – Encontro de Estudos sobre Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas, em Londrina, fiz uma menção à necessidade de criarmos uma associação de pesquisadores brasileiros atuantes nesses dois campos de conhecimento e, junto com ela, um periódico científico dedicado a essas temáticas.

Graças à generosidade daqueles que estavam na Assembleia de criação da ANEGEPE, coube a mim fazer uma introdução falando dos antecedentes que acabaram conduzindo àquela reunião na casa de Vânia Nassif e a aprovação de criação da ANEGEPE. Um pouco dessa história está registrada no sítio eletrônico da ANEGEPE em www.anegepe.org.br.

Em nossa primeira reunião, discutimos a possibilidade de criação imediata da Revista da ANEGEPE. Um pouco inseguros sobre as condições que teríamos para dar conta dessa iniciativa, analisamos até a possibilidade de adotar uma revista já existente para se tornar o periódico científico da ANEGEPE. Não chegamos a uma decisão nessa reunião.

Na minha volta para Curitiba, depois de conversar com a Jane Mendes Ferreira, que já estava atuando como professora do Departamento de Administração Geral e Aplicada da UFPR, fiz uma proposta para a diretoria da ANEGEPE de criarmos a Revista de Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas – REGEPE e me ofereci para atuar como seu primeiro editor. Sentia um forte desejo de me envolver com essa iniciativa que, para mim, era uma espécie de continuação dos esforços que tinha feito nos anos inicias do EGEPE: Maringá (2000); Londrina (2001); Brasília (2003) e Curitiba (2005). Minha proposta foi aceita e Jane assumiu o papel de Editora Adjunta. Aliás, sem o apoio da Jane essa revista teria demorado um pouco mais para surgir.

Na semana passada, foi realizado o VIII EGEPE na cidade de Goiânia. De acordo com o que me contaram foi um sucesso! Muito bem conduzido por Cândido Borges e Emil Hoffmann. Não pude ir para Goiânia devido a compromissos que me prenderam a Curitiba. Na história do EGEPE, deixei de comparecer apenas ao que aconteceu em Recife (2010), conduzido por meu amigo Fernando Paiva e a este de Goiânia.  Além daqueles em que estive envolvido com a organização, consegui participar do EGEPE em São Paulo (2008) e Florianópolis (2012).

Agora em 2014, em breve, Jane e eu deveremos concluir a edição do volume 2 da REGEPE que corresponde a 2013. Depois, também em breve, Jane assumirá o papel de Editora responsável pelas edições de 2014 e 2015. Ficarei no papel coadjuvante de editor adjunto nos próximos dois anos. Mas, não se enganem! Eu serei coadjuvante mesmo, mas Jane nesses dois anos fundadores da REGEPE foi a protagonista, atriz principal! Só não levou os créditos por isso. Injustiça que espero estar reparando agora! Foi ela quem se debruçou sobre o SEER, sistema de editoração eletrônica de revistas, resolvendo as dificuldades que enfrentamos nesse período. Foi ela, também, quem conduziu a maior parte das avaliações dos trabalhos por nossos pares. E principalmente, foi ela quem estruturou as cinco edições, deixando a mim a tarefa de escrever o editorial de cada edição. Meu muito obrigado a Jane, amiga de valor inestimável cujo apreço me faz muito feliz!

Hoje, em fins de março de 2014, dediquei algum tempo para levantar alguns dados sobre a REGEPE. Vinte e sete artigos foram publicados nos cinco números publicados até hoje: três edições de 2012 e duas edições de 2013. Setenta e quatro autores foram os responsáveis por essa produção que tivemos o privilégio de tornar público.  E o dado mais significativo, pelo menos para mim: 12.580 acessos aos trabalhos publicados pela REGEPE, ou seja, mais de 570 acessos por mês ao longo de 22 meses.

Na tabela abaixo estão os dados de acesso de cada artigo, classificados por média de acessos mensais:

TÍTULO
ACESSOS
ACESSOS/MÊS
EMPREENDEDORISMO ACADÊMICO NO BRASIL: UMA AVALIAÇÃO DA PROPENSÃO À CRIAÇÃO DE EMPRESAS POR ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS
1101
79
CARACTERÍSTICAS EMPREENDEDORAS: UM ESTUDO DE CASO COM FARMACÊUTICOS UTILIZANDO O MODELO DE MCCLELLAND
778
56
MULHERES EMPREENDEDORAS: COMPREENSÕES DO EMPREENDEDORISMO E DO EXERCÍCIO DO PAPEL DESEMPENHADO POR HOMENS E MULHERES EM ORGANIZAÇÕES
222
56
COMPETÊNCIAS EMPREENDEDORAS EM FRANQUIAS: ESTUDO DE MULTICASOS EM SERGIPE
220
55
EMPREENDEDORISMO SUSTENTÁVEL: PROPOSIÇÃO DE UMA TIPOLOGIA E SUGESTÕES DE PESQUISA
658
55
INOVAÇÃO SOCIAL E ESTRATÉGIAS PARA A BASE DA PIRÂMIDE: MERCADO POTENCIAL PARA EMPREENDEDORES E PEQUENOS NEGÓCIOS
205
51
A PESQUISA SOBRE INOVAÇÃO EM SERVIÇOS NO BRASIL: ESTÁGIO ATUAL, DESAFIOS E PERSPECTIVAS
486
41
PERFIL EMPREENDEDOR: ESTUDO SOBRE CARACTERÍSTICAS EMPREENDEDORAS DE MOTORISTAS FUNCIONÁRIOS, AGREGADOS E AUTÔNOMOS DO TRANSPORTE RODOVIÁRIO DE CARGAS.
476
40
IDENTIFICAÇÃO DE ELEMENTOS CULTURAIS NA AQUISIÇÃO DE UMA EMPRESA FAMILIAR POR UM FUNDO DE PRIVATE EQUITY: UM ESTUDO DE CASO
153
38
RBV E EMPREENDEDORISMO: PERMUTAÇÕES CONTRIBUTIVAS
535
38
ORIENTAÇÃO EMPREENDEDORA COMO INDICADOR DO GRAU DE EMPREENDEDORISMO CORPORATIVO: FATORES QUE CARACTERIZAM OS INTRAEMPREENDEDORES E INFLUENCIAM SUA PERCEPÇÃO.
524
37
RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL NA HOTELARIA: A VISÃO DE EMPRESAS DE DISTINTOS PORTES E ENTRE SEUS DIFERENTES NÍVEIS HIERÁRQUICOS
147
37
POLÍTICA NACIONAL DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO: AVALIAÇÃO DO MARCO REGULATÓRIO E SEUS IMPACTOS NOS INDICADORES DE INOVAÇÃO
431
36
REPRESENTAÇÕES FEMININAS DA AÇÃO EMPREENDEDORA: UMA ANÁLISE DA TRAJETÓRIA DAS MULHERES NO MUNDO DOS NEGÓCIOS
729
35
SEDIMENTANDO AS BASES DE UM CONCEITO: AS COMPETÊNCIAS EMPREENDEDORAS
682
32
PREVISÃO DE INSOLVÊNCIA EM MICRO E PEQUENAS EMPRESAS UTILIZANDO INDICADORES CONTÁBEIS
434
31
AMBIENTE DE INOVAÇÃO: ESTUDO COMPARATIVO ENTRE TRÊS UNIDADES DE UMA ORGANIZAÇÃO DO SETOR METAL-MECÂNICO
336
28
A CRIAÇÃO DE NEGÓCIOS POR EMPREENDEDORES JOVENS: ESTUDO DE CASOS MÚLTIPLOS NO ESTADO DE SERGIPE
556
26
PRODUÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA SOBRE EMPREENDEDORISMO SOCIAL ENTRE 2000 E 2012
512
26
EVOLUÇÃO DO CAPITAL SOCIAL EMPREENDEDOR DOS SPIN-OFFS UNIVERSITÁRIOS
524
25
O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DA SUCESSÃO EMPREENDEDORA EM EMPRESAS FAMILIARES: UM ESTUDO MULTICASO
521
25
AVALIAÇÃO DE COMPETITIVIDADE E GERENCIAMENTO DE DESTINOS TURÍSTICOS: UMA APLICAÇÃO NO SUL DO BRASIL
289
24
UMA ABORDAGEM SOBRE O PAPEL DAS REDES PARA PEQUENAS EMPRESAS E SOBRE OS EFEITOS NO APRENDIZADO DE EMPREENDEDORES
494
24
PRÁTICAS GERENCIAIS DE PEQUENAS EMPRESAS INDUSTRIAIS DO ESTADO DE SÃO PAULO: UM ESTUDO EXPLORATÓRIO
443
22
O PAPEL CONSTRUTIVO DAS INCUBADORAS NO ALINHAMENTO ESTRATÉGICO E MERCADOLÓGICO DAS EMPRESAS INCUBADAS E GRADUADAS
392
20
PROPOSIÇÃO DE UM NOVO MÉTODO DE SELEÇÃO DE MICRO, PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS DE BASE TECNOLÓGICA (MPEBT)
377
19
A IDENTIDADE EMPREENDEDORA NO CONTEXTO DE EMPRESAS DE PEQUENO PORTE
355
18

Sinto um profundo sentido de realização por ter me envolvido nessa aventura! David McClelland estava certo ao chamar nossa atenção para a famosa “necessidade de realização”.

Meu muito obrigado à comunidade brasileira de estudiosos do empreendedorismo e da gestão de pequenas empresas pela confiança e pelo convívio salutar e fraterno nesses anos todos.


Pequenas editoras x grandes

http://www.gazetadopovo.com.br/m/conteudo.phtml?tl=1&id=1458044&tit=Literatura-contra-a-mare

domingo, 9 de março de 2014

A cuidadora de Sócrates

Em memória de Robinho, irmão de Sara.

Seu bom humor deixará  saudades!

Lara, biscatinha ou biscatona? Essa pergunta me pôs a pensar sobre a construção do sentido que damos às nossas vivências.

Paulo e eu estávamos tomando um chope na praça de alimentação de um shopping em Maringá, quando uma moça com uma bandeja na  mão pediu licença para compartilhar nossa mesa:

_ Posso sentar aqui? Daqui vinte minutos entro no trabalho. A praça está cheia.

_ Fique à vontade, eu disse.

Paulo e eu continuamos a botar o papo em dia. De repente, entre um gole de chope e uma batata frita, pergunto o nome da moça concentrada em seu almoço.

_ Lara. E o seu?

_ Eu sou o Fernando. Ele o Paulo. Você trabalha no shopping?

_ Não. Estudo técnica de enfermagem e trabalho como cuidadora. Cuido de um senhor idoso. Começo meu trabalho daqui a pouco.

Nesse ponto da conversa, o celular do Paulo toca. Era a esposa avisando que éramos esperados para almoçar na casa da sogra. Somos concunhados, o que significa que compartilhamos a sogra..

Passa o dia, de noite ligo pro Paulo, perto das nove e meia:

_ Paulo, já foi dormir? Eu perguntei.

_ Ainda não.

_ Então vou dar uma passada aí. Preciso comprar minha passagem de volta para Curitiba.

Precisava usar a INTERNET. Marinelva, nossa cunhada, vai comigo. Sara fica com a mãe, lhe fazendo companhia enquanto esperamos a chegada do corpo de Robinho que falecera em um acidente na Bahia.

Em casa de Paulo, conversamos sobre a morte. De repente surge a questão da velhice. Da velhice a conversa retorna à morte. Robinho, aos 44, morreu muito cedo. Mas, é a velhice que nos assusta mais que a morte.

Nessa altura da conversa, Paulo lembra da morte de Sócrates, o filósofo, não o futebolista. Para Paulo, o ato de Sócrates tomar cicuta poderia ser interpretado como uma escolha alternativa à velhice. Um sentido diferente àquele atribuído por muitos estudiosos, o de que Sócrates decidiu observar a lei, essa construção social que erigimos para tentar ordenar a vida coletiva. Para muitos, Sócrates era  um legalista, o que justificaria sua escolha. Teria Sócrates decidido por sua morte ao invés dos riscos da velhice? Não temos resposta a essa pergunta. Mas,  ela pode ser buscada em motivações distintas, razoavelmente verossímeis.

Comento:

_ Será que a escolha de Sócrates teria sido outra se naquela época houvesse cuidadoras?

Minha pergunta surge da lembrança do encontro com Lara. Conto brevemente a história do encontro com Lara aos demais que participavam da conversa. De vozes femininas, surgem duas afirmações:

_ Biscatinha! Uma disse.

_ Biscatona! Ecoou outra.

Lembrei-me da teoria de personalidade de George Kelly, que em 1955 propôs a Teoria dos Construtos Pessoais. Nesta teoria, Kelly defendeu a ideia de que os humanos constroem o significado de suas vidas por meio de um sistema de construtos. Esse sistema de construtos baseia-se na criação de categorias que usamos para classificar nossos eventos, coisas e pessoas com que convivemos.

As categorias surgem das similaridades e diferenças que percebemos no que vivenciamos. Uma forma de pensar parecida com a de um cientista. Os construtos que criamos são bipolares. Segundo Kelly, para o mundo ser compreensível, uma ideia só faz sentido se compreendemos o seu oposto. Gordo ou magro, bonita ou feia, triste ou alegre, limpo ou sujo, santa ou devassa, biscatinha ou...

Desde os anos 90 do século passado, uso essa teoria para tentar compreender os modelos mentais que dirigentes de pequenas empresas desenvolvem para compreender o mundo de seus negócios e tomar decisões baseados neles.

A beleza das ideias de Kelly - olha ai eu em busca da beleza no conhecimento de novo - reside no dinamismo desse sistema de construtos. Cada um de nós desenvolve um sistema de construtos único, mas na interação com outros nossos sistemas vão sendo compartilhados e transformados, um vir a ser contínuo que só a morte interrompe.

O que Lara seria? Muitas categorias poderiam lhe ser aplicadas, dependendo dos modelos mentais únicos de cada pessoa que pudesse presenciar a cena do shopping. Nesse momento senti falta do bom humor de Robinho.

Resposta certa não importa agora! Talvez, essa poderia ser aproximada com um pouco mais de papo com Lara. Um telefonema abreviou essa conversa!

A mesma coisa acontece nas minhas conversas com dirigentes de pequenas empresas. Alguém ou algo faz com que a conversa tenha que ser encerrada. Eu, pesquisador, fico com uma visão parcial de seus modelos mentais. Sempre tenho que reconhecer as limitações do que posso afirmar a partir dessas conversas. É a vida! É a condição constante da busca do conhecimento: a humildade de afirmar que a explicação dada faz sentido, mas pode ser outra.

Enfim, qualquer que seja a Lara, que seja feliz! Ao destino, meu muito obrigado por esse encontro. É provável que um dia, em um futuro muito distante, me lembre de Lara e busque os serviços de uma jovem cuidadora. Como ela mesmo disse em nosso curto encontro:

_ Os homens preferem cuidadoras jovens! (Olha ai um modelo mental se exibindo a um cientista que queira enxergar).

Prefiro isso à cicuta de Sócrates!