quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Índice de Confiança do Empresário de Pequenos e Médios Negócios no Brasil

IC-PMN |

sábado, 23 de novembro de 2013

Perto da Concha Acústica: o Cachorro-quente que virou Pitbull!

Ontem, 22 de novembro, fiz um lanche em uma das esquinas do centro de Londrina. Voltava, a pé, do lançamento da Revista Organizações e Sustentabilidade cujo editor é o Ivan de Souza Dutra, professor do Departamento de Administração da Universidade Estadual de Londrina..
Tive o privilégio de ser o autor de um ensaio na primeira edição deste novo periódico do Programa de Pós-graduação em Administração da UEL. Por um acaso do destino, estava em Londrina no dia da cerimônia organizada por Ivan, Luis Miguel Luzio dos Santos e Marli Verni.
Ambiente acolhedor e momentos de reencontro com colegas e ex-alunos. Lilian Aligleri também estava lá, com a filhinha de nove meses e Marli, sua mãe. Pena que Luís Antônio, pai de Lilian, não veio. Saudades desse amigo de longa data, professor competente sempre homenageado pelos estudantes.
Ao final do evento, decidi caminhar até a casa de minha mãe onde estou hospedado. Pouco mais de mil metros, a partir de um shopping nas proximidades da rodoviária até Concha Acústica de Londrina, vizinha à Catedral. Os mais jovens devem estar curiosos! O que é uma concha acústica?
Não vi muitas em minha vida. Na verdade, acho que conheço só a de Londrina. É uma construção de alvenaria, convexa, em forma de concha, que fica sobre um palco em uma praça pública. A praça tem cerca de dez fileiras de bancos de concreto. Na Concha Acústica são apresentados shows musicais, peças e outras atrações. Já foi muito usada no passado. Ultimamente, durante as noites, tem sido utilizada como dormitório por sem-tetos.
Mas, o que quero relatar é a história do cachorro-quente que virou pitbull! Subindo pela rua Maranhão notei um aglomerado de pessoas na esquina com Souza Naves, ao lado de um carrinho de cachorro-quente.
Apesar de ter comido e bebido no lançamento da revista, resolvi comer um cachorro-quente. A cena e a fresca brisa noturna me trouxeram lembranças de minha juventude. Sempre que saía das sessões noturnas do Cine Vila Rica, voltava a pé para casa. No caminho, na Avenida Higienópolis, comia um cachorro-quente. Sempre no mesmo carrinho.
Aproximei-me e o lancheiro me disse:
_ Se for comer, põe o nome na lista.
Me passou uma prancheta com uma caneta e folha de papel. Nela já havia mais de 15 nomes. Quando terminou de preparar o lanche que estava fazendo, pegou a prancheta e chamou alguém. Em seguida me avisou:
_ Tem mais dois na sua frente.
_ Não tem pressa, respondi. Não tenho nada pra fazer esta noite.
Na minha vez, ele perguntou:
_ O que vai ser?
_ Duas salsichas, maionese, catchup e mostarda.
_ Pit 2. Não quer milho verde e batata palha?
_ Não. Como você chama o lanche?
_ Pit 2. Pão pequeno com duas salsichas. Pit 1quando tem uma salsicha.
Esse foi o começo do papo. Estimulado por minhas perguntas, o lancheiro me contou que está nisso há 29 anos. Foi office-boy antes de começar a fazer lanche na rua. Há nove anos está nessa área da cidade, mas antes trabalhou na Higienópolis e na Quintino Bocaiúva. Mais ou menos dez anos em cada rua. Nessa altura da conversa é que reconheci a figura:
_ Lembro de você da Higienópolis! Como está a vida?
_ Não está mal. Melhorou nos últimos dez anos quando comecei a fazer sucos. A partir do meio do dia preparo tudo e venho pra rua entre quatro e quatro e meia. Começo perto da delegacia e, mais tarde venho para esse lugar. Os sucos são meu diferencial junto com os lanches maiores: dogão e pitbull.
Nesse momento, chega uma moça com uma criança no colo e um menino ao lado. Uma graça de garoto, quatro anos no máximo, que fala para o lancheiro:
_ Oi Davi. Eu voltei!
Davi sorri e brinca com o menino:
_ Eu vi. Mas achei que era um gatinho.
_ Não era um gatinho. Era eu.
A cena me encantou!
Ao mesmo tempo, chegam três rapazes. Com uma larica danada, um deles pede:
_ Faz três bem regadão!
Davi repete o procedimento:
_ Coloca os nomes aqui, para eu chamar quando for fazer.
Continuo conversando com Davi, agora o chamando pelo nome que aprendi com o garoto. Davi me conta sobre o que conseguiu nesse ofício:
_ Duas casinhas, um carro e uma pequena caminhonete para transportar o carrinho e material.
Parece muito satisfeito. Pergunto se não pensa em ter um espaço próprio, mesmo que seja apenas com uma porta.
_ Não! Gosto da rua, não conseguiria ficar num lugar só.
Aprendo com Davi! Fazer diferente, mas do jeito que gosta. Enquanto conversamos, vários clientes pedem por suco.
_ Ele tem vários, mas o melhor é morango com danone, me diz uma moça.
_ Sou bom no suco, garante Davi.
Chama o primeiro dos rapazes:
_ O que vai ser?
_ Bem regadão, repete o cara.
_ Vai ser o pitbull então. Pão grande, duas salsichas, maionese, catchup, mostarda, maionese verde, milho, frango na chapa e batata palha. Pros três?
_ Sim, respondem os três ao mesmo tempo.
Davi olha pra mim e diz:
_ Tem que dizer o que é, pra não reclamarem depois. O dogão é quase igual. Só não tem o frango.
Quase ao fim da conversa, Davi me ensina um pouco mais. Um dos três jovens pega uma bisnaga de catchup. Davi avisa:
_ Não encosta o bico da bisnaga onde morder.
_ A fiscalização pega no pé? Pergunto.
_ Não, eles estão certos, diz Davi. Na mordida pode estar alguma bactéria.
Em seguida, fala para o jovem:
_ Traz a bisnaga aqui. Vou fazer um potinho para você.
Davi se mostra socialmente responsável e, ainda, consegue customizar o pitbull para o cliente.
O que vi nessa noite? Davi de bem com a vida, trabalhando de segunda a sábado, descansando aos domingos, se sentindo bem sucedido! Sabendo atender, sendo organizado e cortês, socialmente responsável e desenvolvendo seu diferencial.
Nada mais adequado para uma noite em que surgiu a Revista Organizações e Sustentabilidade!
 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Sobre Desafios e Ganas ou Cabelo e Barba em uma Barbearia Portuguesa

Este texto foi escrito no dia 18 passado. Em meu celular dentro de um ônibus entre Faro e Lisboa:
Poder viajar para fora do Brasil é uma oportunidade de vida ímpar. Depois de sete dias em Portugal, estou a caminho de Lisboa para a viagem de retorno. Um problema no avião em Faro me colocou em um ônibus que segue pela autopista A2 há cerca de quarenta minutos. Sara cochila a meu lado.
Aproveito para refletir sobre essa semana em que reencontrei Fernanda. Há um mês fora do Brasil, passou por momentos desagradáveis quando, logo na primeira semana, teve sua bolsa furtada. Perdeu algum dinheiro, passaporte, cartões de banco e crédito. Estava desanimada quando nos encontramos em Sevilha. Aos poucos seu semblante foi desanuviando. Passeamos com Sara e Dona Aparecida uma noite e um dia por lá. Depois, no dia seguinte fomos a Lisboa onde passeamos por dez horas.
Hoje, ao deixá-la na rodoviária de Olhão, fiquei feliz ao vê-la pronta para a luta da vida de novo. Cheia de desafios! Com ganas de enfrentá-los! Ao falar com ela no meio da tarde, já estava na Universidade de Sevilha, fazendo seus trabalhos do Mestrado em Comunicação e Cultura.
Ver Fernanda pronta para recomeçar me trouxe à lembrança o encontro com Vitálio, técnico em cabelo, como me informou o crachá em seu guarda-pó. Na quarta pela manhã, dia 13, passeando pelo centro de Olhão, indago por uma barbearia. Um vendedor em uma praça sugere que vá a barbearia do Vitálio. Sigo suas indicações pelas vielas de Olhão e logo a encontro.
De imediato, lembrei-me de seu Lauro e sua barbearia. Personagem de minha infância e adolescência com seu pequeno salão onde eu e meus irmãos estivemos incontáveis vezes. Primeiro com nosso pai e, quando maiores, sozinhos.
O salão do Vitálio tem apenas uma porta. Duas cadeiras antigas de barbeiro ao fundo, de frente para um espelho. Paredes laterais emolduradas por espelhos na altura dos olhos. Abaixo dos espelhos, cadeiras para os clientes. Fotos, gravuras e pequenos quadros enfeitam as paredes.
Ao entrar, havia um par de clientes sendo atendidos e mais dois a esperar. Perguntei a um dos barbeiros se poderiam me atender. Diante da resposta positiva pus-me a esperar.
Vitálio, cujo nome só descobri quando foi me atender, conversava com um senhor mais idoso. De repente sai-me com uma pergunta ao idoso:
_ Quero ver se está com o cérebro a funcionar? O que vem primeiro: o Natal ou o Novo Ano?
A resposta do idoso foi:
_ Natal, ora pois.
_ Errado, disse o Vitálio. O novo ano vem sempre antes do Natal. O Natal vem sempre ao final do ano.
Continuou:
_ Que mês tem vinte e oito dias?
_ Fevereiro.
_ Não. Todos os meses têm vinte e oito dias.
Nesse momento, o outro barbeiro entrou na conversa:
_ Em que mês as mulheres mijam menos?
No meio da risada de todos, o próprio respondeu:
_ Fevereiro, pois tem menos dias.

Assim, o tempo foi passando e chegou minha vez de ser atendido. 
Expliquei como queria cabelo e barba. Não precisei falar muito. O barbeiro só me perguntou o número da máquina para aparar a barba. O resto foi como sempre tivesse me atendido. Perfeito!
Fiz algumas perguntas e descobri que Vitálio tem essa profissão desde os dez anos. Aprendeu com seu pai, que foi ensinado pelo pai também, que aprendera o ofício com seu pai. Há algumas gerações o ofício é transmitido de pai para filhos. Mais recentemente, algumas sobrinhas também se tornaram cabeleiras.
Vitálio no ano que vem completa sessenta e seis anos. Fundou seu salão ha quarenta e um anos. Está pensando em se aposentar. Caso isso ocorra, completará 56 anos de profissão e 42 anos com sua pequena empresa. Fico pensando nos desafios que enfrentou nessa jornada. Com certeza deve ter tido muita gana para enfrentá-los.
Tenho certeza que, além do serviço competente, o clima que vivenciei em cerca de uma hora é um dos aspectos que garantiram a permanência do Vitálio no mercado por tanto tempo.

Feliz de mim que tive o acaso a meu favor me permitindo conhecer Vitálio, o técnico em cabelo!


domingo, 10 de novembro de 2013

Sustentabilidade da Sociedade é preocupação relevante para as empresas mais admiradas do Brasil?

Recebi ontem a edição especial de Carta Capital - As empresas mais admiradas no Brasil, número 16. No ano passado, publiquei um post (http://3es2ps.blogspot.com.br/2012/10/as-empresas-mais-admiradas-do-brasil-e.html) tecendo alguns comentários sobre os resultados dessa pesquisa, decidi repetir a análise hoje,  seguindo os mesmos procedimentos do ano passado.

Nessa publicação, as empresas são classificadas segundo a percepção de mais de 1.200 executivos a respeito de sua aderência a treze fatores-chave que, no cômputo geral de importância atribuída pelos respondentes da enquete, foram hierarquizados de forma distinta em 2013. No ano passado, Ética e Inovação eram os principais fatores-chave, seguidos por Qualidade de Produtos e Serviços, Respeito pelo Consumidor e Solidez Financeira. No último levantamento, a Qualidade de Produtos e Serviços assumiu a liderança do ranking, seguida por Respeito pelo Consumidor, Ética, Inovação e Solidez Financeira. Resultado intrigante! Um rearranjo de prioridades na condução das empresas avaliadas? Parece que sim, pois houve também mudanças de posição em relação aos outros fatores-chave. A classificação dos fatores-chave nos dois anos é apresentada no quadro abaixo:

ORDEM
2012
2013
1º.
Ética
Qualidade de produtos e serviços
2º.
Inovação
Respeito pelo consumidor
3º.
Qualidade de produtos e serviços
Ética
4º.
Respeito pelo consumidor
Inovação
5º.
Solidez financeira
Solidez financeira
6º.
Qualidade de gestão
Qualidade de gestão
7º.
Compromisso com desenvolvimento sustentável
Compromisso com RH
8º.
Compromisso com RH
Compromisso com desenvolvimento sustentável
9º.
Responsabilidade social
Notoriedade
10º.
Notoriedade
Responsabilidade social
11º.
Capacidade de competir globalmente
Compromisso com o país
12º.
Compromisso com o país
Capacidade de competir globalmente
13º.
A mais ativa/presente nas redes sociais
A mais ativa/presente nas redes sociais

Da mesma forma que no ano passado, chamou  minha atenção a distância entre ética e outros fatores-chave que indicam uma preocupação com os interesses mais amplos da sociedade: Compromisso com desenvolvimento sustentável (oitava posição), Responsabilidade social (décima posição) e Compromisso com o país (décima-primeira). Esse distanciamento me levou a analisar o comportamento dos fatores-chave em cada um dos setores descritos na publicação (47). Para isso, fiz uma pontuação ranqueada dos fatores-chaves em cada setor. Isso significou atribuir pontos para o fator-chave conforme sua posição na escala de importância, ou seja, 13 pontos para o primeiro lugar, 12 pontos para o segundo, 11 pontos para o terceiro e, sucessivamente, até 1 ponto para a décima-terceira posição.

Em seguida, os fatores-chave foram separados em três grupos, como feito em 2012: forma de competição no mercado (Posicionamento Competitivo), capacidade de competição (Competências e Recursos)  e compromisso com a sustentabilidade da nossa sociedade (Sustentabilidade da Sociedade). A presença em redes sociais foi excluída da análise por se fazer presente em apenas 21 setores, frequentemente nas últimas posições. Assim, cada grupo ficou com quatro fatores-chave.

De novo, como no ano passado, foi possível verificar que as empresas mais admiradas devem sua reputação, sob o ponto de vista dos executivos, muito mais a fatores-chave associados a Posicionamento Competitivo e Competência e Recursos e menos à preocupação com a Sustentabilidade da Sociedade. Esse resultado foi um pouco mais acentuado do que em 2012, como pode ser visto no quadro a seguir:

GRUPO
FATOR-CHAVE
2012
2013
PONTOS
%
PONTOS
%
Posicionamento Competitivo
Qualidade de Produtos e Serviços
452,00
37,1
497,50
38,4
Respeito pelo Consumidor
487,00
490,50
Inovação
483,00
420,50
Capacidade de Competir Globalmente
118,00
164,50
Competências e Recursos
Solidez Financeira
411,50
31,7
366,50
32,3
Qualidade de Gestão
364,00
359,00
Compromisso com RH
301,00
322,50
Notoriedade
240,00
273,00
Sustentabilidade da Sociedade
Ética
546,00
31,5
455,00
29,3
Compromisso com Desenvolvimento Social
335,00
301,50
Responsabilidade Social
282,00
247,00
Compromisso com o País
143,00
196,00


Esse resultado é um pouco desanimador par aqueles que pensam na possibilidade da prática de uma administração equilibrada entre os aspectos econômicos, sociais e ambientais. Em 2012, os aspectos sociais e ambientais quase igualaram a importância atribuída aos fatores que indicam uma capacidade competitiva econômica das empresas. No entanto, em 2013, os fatores-chave da Sustentabilidade da Sociedade perderam 2 pontos percentuais. Como será em 2014? Estou começando a gostar de fazer essa análise, mas não sou muito crente na possibilidade de um melhoria significativa na atribuição de importância ao terceiro grupo. Espero estar errado!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

OS 5 Ps DO EMPREENDEDORISMO

Para todos os que me ajudaram a estudar empreendedorismo nos últimos 20 anos.

Passei dois dias e meio na UNICAMP participando de um curso sobre ensino para o empreendedorismo. Conduzido por Shirley Jamieson e Shiba Barakat da Universidade de Cambridge, o curso teve representantes de várias agências de inovação de universidades brasileiras e foi organizado pela INOVA UNICAMP.

Foi uma boa oportunidade de aprendizagem sobre a condução de programas de desenvolvimento de empreendedores. A experiência de Cambridge no tema foi o eixo condutor do curso, mas houve relatos das abordagens dos participantes brasileiros também.

Em determinado momento, um dos participantes mencionou um modelo que contêm três dimensões que explicam o sucesso no empreendedorismo: paixão, habilidades e mercado. Edmundo Inácio Júnior, meu amigo que reencontrei no curso, disse que essa ideia é mencionada por Tina Seelig no livro What I wish I knew when I was 20.

Foi nesse momento que, inspirado por essa ideia, minha atenção focou-se em meu caderno de anotações e minha presença no curso tornou-se apenas um fenômeno físico. Minha mente começou a viajar pelo mundo da imaginação!

Pensei: independente de qual seja o sucesso desejado, o que move empreendedores em direção ao sucesso que almejam?

Comecei a teorizar a partir do modelo citado por Tina Seelig e iniciei minha jornada, à maneira de Mintzberg, para encontrar os 5 Ps do empreendedorismo.

O primeiro P já estava no modelo: Paixão. Não sei o que o modelo diz sobre isso, pois não li o livro de Seelig. Para mim, paixão está relacionada com a dedicação que devotamos a algo ou alguém que nos aproxima da felicidade. A paixão por alguém é, quase sempre, mais gratificante  pois pode ser retribuída, mas no empreendedorismo o objeto de desejo é o empreendimento. Sem a paixão, será difícil surgir a apetência para atender as demandas desse objeto do desejo. Que as vezes pode ser um pouco obscuro! (um pouco de surrealismo Buñueliano).

Mas a paixão, embora necessária, não é suficiente. Ela precisa ser guiada por um Propósito, o segundo P. Para que essa paixão? Onde posso chegar com ela ou quero chegar? O propósito se refere à motivação para empreender. Qual é o objetivo do empreendedor?

Mas, não é só isso. Propósito tem a ver também com a razão de existência do empreendimento. O que é oferecido ao mercado, se for uma empresa, ou a sociedade, se for outro tipo de organização. Ou seja, tem a ver com o que chamo posicionamento co-opetitivo no mercado ou sociedade.

O terceiro P está parcialmente incluído no modelo citado por Seelig. Quando se fala de mercado, não se pode esquecer que mercados são Pessoas. É evidente a ligação do propósito com pessoas. Para ser bem sucedido, o empreendimento deve ter uma oferta capaz de atrair pessoas.

No entanto, essa dimensão extrapola esse sentido de ofertar algo desejado por pessoas. O empreendimento, em geral, necessita de outras pessoas para existir: empregados, sócios, fornecedores, parceiros etc. Para cada tipo de público, ha interações que precisam ser estabelecidas. Como convencer fornecedores a proverem as necessidades do empreendimento? Como atrair e manter pessoas trabalhando no empreendimento seja como sócios ou empregados. Como envolver pessoas de outros empreendimentos em parcerias?

Estas e outras questões conduzem para as Práticas, quarto P que imaginei. Empreender requer um saber fazer que é direcionado por três eixos: imaginar uma nova organização, buscar e articular recursos e tecnologias em um modo de operação e estimular e conduzir pessoas visando atingir objetivos. O quarto P se materializa nas Práticas desse saber fazer. Elas podem se manifestar pelo uso de ferramentas de diagnóstico, planejamento e controle ou são ações que surgem na lida cotidiana com as demandas do funcionamento inicial do empreendimento. Em essência, dizem respeito ao exercício de três papéis empreendedores: criador, organizador e condutor. Papéis pelos quais se manifesta o empreendedorismo individual ou coletivamente.

Enfim o quinto P é o Produto. Todo empreendimento se constrói em torno da capacidade de entregar um produto, tangível ou intangível, para a sociedade de forma mais ampla ou mercado, de forma mais estreita. É no Produto que surge o resultado de Paixão, Propósito, Pessoas e Práticas. De novo, tangível ou intangível, é o vir a ser do produto que justifica o ato de empreender. É devido à complexidade desse vir a ser que nossa sociedade precisa de empreendedores e empreendimentos. Se fosse trivial  não haveria razão para o empreendedorismo.

Assim, terminou minha jornada em busca dos cinco Ps do empreendedorismo. Cheguei onde minha imaginação pode me levar. 

Poderia retornar ao curso com nossas colegas inglesas, mas já está na hora de ir embora! Sobre o que foi a parte final do curso? Não me pergunte. Só meu corpo estava lá!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Qualquer Coisa, ou para ser professor de empreendedorismo é preciso...

Hoje, de novo, ouvi uma pérola do pensamento contemporâneo sobre educação em empreendedorismo:

Para ser professor de empreendedorismo é preciso  ser empreendedor.

Me pus a indagar:

Para ser professor de administração é preciso ser administrador?
Para ser professor de cinema é preciso ser cineasta?
Para ser professor de poesia é preciso ser poeta?
Para ser professor de história é preciso ser historiador?
Para ser professor de política é preciso ser político?
Para ser professor de física é preciso ser físico?
Para ser professor de engenharia é preciso ser engenheiro?

Para ser professor de contabilidade é preciso ser contabilista?
Para ser professor de religião é preciso ser religioso?

Ou seja, dá até para criar uma regra geral:

Para ser professor de qualquer coisa é preciso ser:

coisador?
coiseta?
coisasta?
coisico?
coisista?
coiseiro?
coisólogo?
ou coisoso?

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Casa nova, foto velha e eu construindo caminhos...


Para Ariston, em agradecimento pela sugestão.


Fernanda compartilhou no Facebook uma foto em que Telma e eu estamos bem jovens, Tirada entre o final dos anos 70 e começo dos 80, foi em um momento antes do casamento, se não me falha a memória. Momentos felizes foi a primeira emoção que me veio à mente. Ao coração seria mais preciso, não fosse a biologia!

Paloma nasceu quando nós já estávamos juntos há quase nove anos. Fernanda juntou-se a nós, um ano e quatro meses depois. O casamento durou mais uma década, talvez onze anos. Ao todo, foram mais de vinte anos. Cumplicidade amorosa temperada pela chegada dessas meninas lindas. Felicidade nas escolhas compartilhadas foi iluminando os meus caminhos de então.

Em algum momento, os caminhos se separaram. Dolorida no começo, a separação foi sendo compreendida e suportada aos poucos. Como na maioria dos casos, acredito, palavras voaram como facas de um atirador de circo mal treinado: machucaram, feriram, mas não foram mortíferas. É provável que nossa memória, tão mais inteligente do que nós, tenha enterrado todas em um canto escuro e inacessível.

Paloma e Fernanda enfrentaram o vendaval. Como puderam. Feridas também! Ficaram morando com a mãe. O pai tentou se fazer presente. Algumas vezes não conseguiu. Terão sido muitas? Espero que não. Mas para elas devem ter sabido a infinitas! Teria eu, por um tempo, esquecido como ser pai? Para elas, também, espero que a memória tenha sido uma aliada. Mas, vez ou outra, uma adaga ressurge. Torço para que a ferida reaberta seja pequena e cicatrize logo.

Final dos anos 90 marca o encontro com Sara. Risada contagiante que me ajudou na caminhada maringaense. Amor maduro que requereu aprendizado. Nem sempre foi fácil, mas valeu o esforço. Cada vez mais cumplicidade em caminhos distintos que se cruzam em algumas paragens. Junto a Sara, Amanda e Marcelo conhecem esse homem de fora, de poucas palavras, mas de sorriso fácil. Em um churrasco, na casa de Paulo, ao invés de ver jogo da seleção brasileira na Copa de 1998, prefiro ficar conversando com Marcelo, então com 9 anos. Sara observava. Deu no que deu! Que bom!

Aos 41, tudo se transforma de repente em minha vida. Os caminhos acadêmicos tornam-se menos solitários com a presença de Paulo, Ariston e Crubellate. Grandes conversas semanais em uma mesa de restaurante, muitas vezes continuadas nas salas da UEM. Olhares distintos que se completavam em trabalhos acadêmicos que me ajudavam a compreender melhor aquilo que estudava.

Fora da academia, fui afetando a vida de Sara, Amanda e Marcelo. Um forasteiro londrinense, meio calado, não muito chegado a beijos e abraços. Um dia leva todos para fora da casa da vó. Com o casamento, vamos morar na XV de Novembro, em Maringá. Algum tempo depois, para mais longe ainda. Nos mudamos pra Curitiba. O que seria uma temporada de quatro anos, já passou de uma década!

Nesses anos da vida adulta, que começa pelos idos de 1977, ocorre a saída da empresa familiar e o aprofundamento na vida universitária a partir de 1981. Chego ao topo da jornada em 2012: professor titular na UFPR. Segundo alguns, poderoso! Ainda não descobri em que! Mas, carrego comigo um senso de realização muito grande. Estudioso das pequenas empresas e depois do empreendedorismo, me sinto vaidoso quando me dizem referência. 

Me lembro de 1988, primeiro congresso internacional na Finlândia. Conheço Allan Gibb, que alguém me apresenta como o Mr Small Business da Inglaterra. Na época pensei:

_ Será que serei algo parecido um dia no Brasil?

Mais importante que tudo isso, são as amizades que surgiram em cada canto: Paulo Hayashi, Fábio Vizeu, Edmundo Inácio, Jane Mendes, Simone Ramos e Nobuiuki Ito. Acho que não podem imaginar o significado que deram a meus caminhos.

Depois da crise de 2010, um renascimento. Algo como surgir das cinzas! Vontade de construir novos caminhos. Viro blogueiro, poeta e estudante de cinema. Me maravilho com as novas paisagens! No começo Sara se assusta. Depois compreende. É o apoio dela, de Paloma e Fernanda que me faz ousar nessas trilhas. Um apoio que se mostra no olhar, no carinho e no afeto de cada uma. Não é preciso nada além disso!

Só fico em dúvida se tenho sido capaz de retribuir como elas merecem. Afinal de contas, sou geminiano! Uma amiga, me disse uma vez, ao me saber geminiano:

_ Tenho pena de sua mulher! Ela nunca terá certeza sobre seus sentimentos!

Fiquei chocado!


Nesse novos caminhos, planejo algo diferente: uma revista de cinema. Mas, uma revista livre, sem avaliação de artigos, sem comitê científico. Apenas, a presença de um coordenador que vai estruturar as edições periódicas e checar formatos. Um mínimo de padronização. O valor de cada texto será o leitor quem decidirá. Peço a ajuda competente de Admir Pancote que cria o site da Cinema Livre em Revista: relici.org.br. Empreendo!

Em breve em uma sala perto de você!

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Estudo GUESSS BRASIL

http://guesssbrasil.org/2013/09/23/estudante-de-nivel-superior-concorra-a-premios-participando-do-estudo-guesss-brasil/

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

domingo, 13 de outubro de 2013

O SIGNIFICADO DE SER EMPRESÁRIA

Passei dois dias fazendo o relatório de um projeto de pesquisa sobre mulheres empresárias. Tivemos a participação de quinze mulheres com empresas sediadas em Cascavel, Curitiba, Londrina, Maringá e Ponta Grossa. Esse esforço de pesquisa foi feito por uma equipe que envolveu, além de mim: Jane Mendes Ferreira,  Simone Cristina Ramos, Juliana Noschang Costa, Mario Nei Pacagnan e Karla Brunaldi.

Nossos objetivos foram, entre outros, revelar a autopercepção como empreendedora ou dirigente empresarial dessa mulheres e o significado que atribuem ao papel de empresária. Ao finalizar essa tarefa, me dei conta que aprendi muito com essas mulheres. É impressionante como conversar com elas sobre o que fazem e por que fazem, nos ajuda a compreender que a prática empreendedora e empresarial pode ser tão diversa, complexa e quase impermeável à um explicação teórica muito abrangente. São tantas as questões envolvidas no fazer empresarial dessas mulheres, que ao me dar conta delas, percebo a grande limitação dos modelos teóricos do campo do empreendedorismo.

Ao longo dos últimos anos, me distancio cada vez mais das grandes explicações universais e quero entender as minúcias de cada história empreendedora. Só para ilustrar sobre o que estou falando, deem uma olhada sobre o que significa ser empresária para oito dessas mulheres que nos contaram parte de suas histórias:

Olha, é gratificante. É uma sensação boa, e é uma sensação de uma coisa inacabada ainda. Inacabada porque ainda tem bastante coisa a ser feita, a gente ainda tem bastante sonho, bastante projeto, bastante vontade de modificar. Então, é uma sensação bem gratificante. Eu só não diria que eu confirmo que é uma realização inacabada, porque ainda a gente sempre está buscando mais. Mas se você for olhar para trás, a gente vê que a gente pode não ter crescido, tanto. Mas você olha, e você vê que você manteve, que você tem que você fez algumas benfeitorias. Então, isso aí é o que te deixa satisfeita vamos dizer assim.
Acho que ser empresária eu comparo com livre-arbítrio, em todos os sentidos. No sentido de você ter a possibilidade de trabalhar com o que você realmente ama e arcar com as consequências disso. De você ser uma empresária honesta ou de você ser uma empresária desonesta, e também arcar com as consequências de um lado ou de outro. De você ser uma empresária idônea ou não idônea e também arcar. E você ser uma empresária que pode eventualmente... a gente estabeleceu três fases, que é o que a gente quer que a empresa seja, que ela trabalhe na sua estrutura, na sua visão de empresa: cultura, educação e cidadania; são os três planos da empresa. E eu acho que ser empresária me permitiu trabalhar com as coisas que eu mais respeito.
Eu não era aquela que falava: “Vou ser empresária, empreender”. Quando eu fazia Administração todo mundo falava: “Vou abrir uma empresa. Eu falava: “Hum... Não, necessariamente!”. eu sou mais pé no chão, assim, acho. Ham... Mas eu ainda sonho em um dia poder ter uma equipe. Assim, debaixo da minha empresa, uma equipe, assim... Não sei se é uma utopia, mas de repente vai, neh? Uma equipe engajada, sabe? Aquelas pessoas, assim: “Puxa, eu adoro o que eu faço, eu ganho bem pra fazer, e eu não troco a empresa por nada”. Sabe aquele tipo de sentimento, é essa empresa que eu quero ter! Foi pra essa empresa que eu fiquei todos esses anos. Quando eu tinha minhas funcionárias eu pensava: “Eu quero que elas se sintam bem, eu quero que elas tenham um ambiente de trabalho gostoso, eu quero que elas ganhem bem”. Entendeu? Porque eu não quero ganhar sozinha. Sabe aquele sentimento? E eu, como eu tinha essa ideologia de trabalhar e de todo mundo ganhar pra todo mundo crescer, não dá certo, ou não deu certo. Mas eu ainda sonho com isso! Pra mim, isso é ser um bom empresário.
Ser empresária pra mim... Meu Deus do céu! É um redemoinho que chegamos para fazer dessa maneira... O que é ser empresária?... Empresária, nossa! É estar no mercado. Eu acho que eu não sou aquela empresária autoritária, aquela coisa assim, sabe? Eu considero assim... A gente se considera ... muito mais parceiro das indústrias, a gente tem essa civilidade como uma, vamos dizer, uma beneficie, um foco, uma coisa por aí, uma cartilha mesmo. Eu acho que me considero muito mais uma parceira.
Me enxergar? Faz pouco tempo! Então é bem assim... Ser empresária é você ter essa afinidade em conseguir identificar quando alguma coisa está sendo feita de maneira errada, ou que você poderia identificar e fazer algo melhor e tentar transformar essa realidade. Essa é a autonomia de você ir lá e falar, isso aqui realmente pode ser feito assim, deve ser feito assado. De você poder tentar fazer diferente, errar porque logicamente a gente vai levar umas pauladas e vai tentar fazer as coisas de maneira diferente, e ter essa autonomia de não fazer assim, porque agora não deu certo, mas posso fazer de outro jeito. Eh... Você conseguir transformar vidas também, porque na minha empresa eu pego pessoas que estão ou se formando ou pra se formar e eu movo essas pessoas pra poder fazer  a empresa do jeito conciliado que inda tem muito essa coisa de paixão, de amor.
Eu amo de paixão desde que eu sou criança, desde os meus 15 anos quando eu comecei a trabalhar firme com meu pai eu sou apaixonada em conversar com gente, em entrar em contato toda hora com pessoas, eu não consigo me imaginar – a gente fala assim “nós temos o dinheiro do dia, do mês e do ano” – aquele dinheiro do mês, não consigo imaginar. Então essa movimentação financeira, esse contato direto com pessoas, isso sempre me encantou. E isso é o que eu vejo num empresário. Eu não sou aquele empresário por trás dos panos, eu sou aquele que está de cara.
Para mim ser empresária é uma pessoa que está sempre dentro do ramo dela, mas está sempre buscando novos horizontes, está sempre se atualizando. Eu acho que nós sempre procuramos isso, porque veja, nós estamos fazendo 50 anos de loja esse ano, em Cascavel, e eu acho que a gente ainda está sempre no topo, eu acho que nós estamos sendo empresários dentro do nosso ramo. Por exemplo, na imobiliária nós não acompanhamos tanto esse ritmo, e nem na construtora, porque surgiram novos grandes construtores, e ouve os booms aí. Mas na loja nós estamos sempre procurando modificar, agora estamos fazendo essa reforma imensa.
Primeiro eu acho que é conduzir todo o processo produtivo..., é o conduzir, é eu estar disposta a desenvolver todas as atividades. Para mim não é só coordenar o processo e delegar funções, é eu planejar, é eu executar o processo, eu estar inteirada de todo esse processo, ter um relacionamento com as pessoas que me dão esse resultado; acho que empresária é uma pessoa aberta à sociedade em que ela vive, acima de tudo. Porque se você for uma pessoa introvertida, isso vai causar um impacto negativo. E na mesma forma na condução dos seus funcionários, eu acho que você tem que ter essa abertura. Então desde a organização, planejamento, condução, administração; pra mim ela é um leque que se abre e que você tem que procurar atender esse grande leque. Ele é às vezes um pouco pesado, não é tão leve como o próprio leque.

Quando me deparei com esses depoimentos, fiquei maravilhado! Seja sincero comigo, faz sentido transformar esses depoimentos em alguma forma de medida? Eu me convenço cada vez mais que não! A busca das regularidades quantitativas nesse campo me diz tão pouco, fica na superfície daquilo que quero entender! É muito melhor eu ir montando um caleidoscópio de fragmentos históricos e cada vez que olhar para eles, conforme eu gire o caleidoscópio, uma nova figura se forma, uma nova compreensão que não substitui as anteriores, mas que se junta a elas nessa compreensão inacabada e continuamente em transformação que minha memória vai armazenando.

Muito parecido com o que uma delas disse: É uma sensação boa, e é uma sensação de uma coisa inacabada ainda. Inacabada porque ainda tem bastante coisa a ser feita, a gente ainda tem bastante sonho, bastante projeto, bastante vontade de modificar. Então, é uma sensação bem gratificante.

O que ficou evidente para mim, nesse momento, é que esses significados carregam uma alta carga de subjetividade, mas ao mesmo tempo revelam um compartilhamento emotivo em relação aos efeitos que essa escolha de carreira profissional significa para essas mulheres. Vai além da competência administrativa e de negócios e apresenta, no seu âmago, um conjunto de emoções que parecem dar significado à própria vida. É um processo contínuo, inacabado, em construção, onde se pratica o livre arbítrio, novos horizontes são buscados, tentar transformar para melhor a realidade. É gratificante, é paixão, é redemoinho, é um leque que se abre, é uma realização inacabada...

Agradeço a essas mulheres por terem nos contado o que pensam sobre ser empresária.